Agricultura sem produtos químicos: será possível?
10 setembro 2018 |
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Depois da condenação da Monsanto a pagar 290 milhões de dólares a um jardineiro californiano por ter sido contaminado e adoecido com o glifosato, mais uma vez muitas vozes se levantam na França contra a utilização dos pesticidas na agricultura. Elas vêm se ajuntar às inumeráveis vozes que já denunciaram no mundo inteiro a nocividade desses produtos, onde a relação entre agrotóxico e aumento de certas doenças, como o câncer, foi estabelecida.  Médicos, científicos e pesquisadores (ver o trabalho feito no meio médico na região de Ijuí) há anos exprimem suas inquietudes sobre essa realidade. No mês de agosto, um agricultor com câncer depositou queixa no Tribunal de Lyon, após ter provado ter 0,25 mg de glifosato nas urinas (por litro). Ele havia aplicado durante 30 anos esse herbicida na lavoura.

A França pretendia diminuir de 50% a utilização dos pesticidas até 2018, mas a concretização desse projeto foi novamente adiado (como outros países da Europa, a França renovou por mais três anos a utilização dos pesticidas). O ministro da Ecologia, Nicolas Hulot, deu a demissão, na semana passada, por não suportar mais a contradição entre as necessidades urgentes de mudanças na agricultura e os interesses econômicos de certos grupos.

As questões que se impõem: será que é possível uma agricultura sem recorrer a pesticidas? Será que existem outras soluções para manter o rendimento dos agricultores?

Segundo o INRA (Instituto Nacional da Pesquisa Agronômica, da França), num artigo publicado, no dia 17 de julho passado, as soluções existem, mas os agricultores nem sempre tem acesso às alternativas propostas. Alternativas, por exemplo, como a agricultura biológica (orgânica) que permitiria de dominar eficazmente as ervas daninhas e as doenças, assim como a criação de ecossistemas para regular naturalmente os bio agressores. Com a cultura biológica, as lavouras seriam protegidas tanto quanto com pesticidas e até mais eficiente, como no caso de eliminar cogumelos e bactérias patogênicas.

“Todo mundo sonha em substituir os pesticidas químicos por uma solução de eficiência igual, de maneira simples. Mas a substituição pratica não será assim fácil”, diz o diretor científico do INRA, Christian Huyghe. Para ele, a transição será longa, ela tomará ainda anos e seria bom começar imediatamente essa mudança. As alternativas se encontram na genética, nos sistemas diversificados, na agricultura de precisão (matar as ervas daninhas mecanicamente, assistida por computadores que visam o lugar certo) e o bio controle (regulação natural das espécies graça aos insetos e cogumelos). E ele pergunta: “Mas será que os agricultores têm vontade de adotar essas soluções?”

Talvez esse seja o principal freio, pois mesmo se essas soluções não são mais caras, elas são mais complexas, elas implicam formação e acompanhamento dos agricultores. Ele conclui que em termos de rentabilidade, essas alternativas são equivalentes às culturas com tratamento químico.

A escolha hoje posta frente aos agricultores (e também dos dirigentes políticos) é entre a rentabilidade imediata ou respeito da Vida, da saúde humana e da natureza. Para o ex-ministro Francês, a transição de um sistema para o outro, não é mais uma opção, mas uma necessidade urgente se nós queremos evitar um desastre ecológico. 


Marilena Marasca é jornalista, psicóloga, palestrante. Taperense, Marilena Marasca estudou Filosofia na Ufrgs e Jornalismo na PUC/RS, atuou como jornalista na Zero Hora e foi assessora de imprensa da Secretaria Estadual da Saúde do RS. Reside em Lyon, na França, há 36 anos. Tem no currículo estudos de Psicologia (Université Lyon 2, Lyon) e Especialização em Psicologia da Comunicação (Instituto Ressources/Bruxelas). Trabalha com grupos de desenvolvimento da Pessoa (trabalhadores sociais, professores de escola secundária, pessoas em crise); acompanha há 25 anos grupos no Saara (Tunísia, Marrocos, Mauritânia) para refletir sobre projeto de vida.