O corpo expressa a dor quando falta a palavra
27 agosto 2018 |
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Uma das características psicológicas que faz de nós verdadeiros “seres humanos” é a diversidade de sentimentos que produzem efeitos em nossa psique e em nosso corpo. São muitas as formas que o ser humano utiliza, de modo inconsciente, para externar os afetos que tramitam dentro de si, formas estas chamadas na psicanálise de “destinos pulsionais”. Freud apontou quatro possibilidades de destino para as pulsões, aquilo que pulsa dentro de cada pessoa e a movimenta em direção aos seus desejos – sejam estes desejos de vida ou desejos destrutivos: retorno contra a própria pessoa, transformação em seu contrário, recalcamento e sublimação. Este tema é ainda hoje estudado e levanta inquietações porque confronta-nos com o jogo de forças que existe e opera em cada indivíduo, que são as forças (pulsões) de vida – Eros –  e de morte – Tanatos.

O primeiro destino pulsional, o mais primitivo e acessível aos inícios do aparelho psíquico nos primeiros tempos de vida, é o retorno contra a própria pessoa. Esta é a forma mais comum de vermos operando em bebês e crianças pequenas, embora muitas pessoas sigam ao longo de sua vida funcionando predominantemente desta forma, e é normal que eventualmente todos tenhamos alguma descarga emocional direcionada ao corpo.

Os bebês, como não possuem uma linguagem verbal e um psiquismo já organizado, somente possuem o próprio corpo como receptáculo de suas vivencias emocionais. O corpo produz sensações a partir de suas necessidades e recebe os estímulos vindos do ambiente. Como ainda não dispõe de um repertório verbal e sequer entende a linguagem do mundo precisa descarregar o excesso sentido pelas experiências de insatisfação/frustração; somente encontra via pela produção de uma manifestação somática. Quantos bebês apresentam “brotoejas”, dermatites, estados febris, dificuldades de adaptação digestivas e excretoras, alterações no sono e no apetite? São estas as formas elementares de sobrevivência do corpo. Quando vivenciam um contexto ou uma situação individual que sente como traumática (por ser mais intensa do que ele pode suportar) tende a encontrar caminho no somático, ou seja, no corpo, para liberar-se da intensidade de tensão psíquica que ficou armazenada.

Ao longo da vida nos utilizamos deste mecanismo regulatório do aparelho psíquico; quem nunca teve uma dor de cabeça, uma tontura,  um desconforto abdominal imediato ao se deparar com uma situação estressante? Mas quando a forma que prevalece na vida do sujeito é a descarga no corpo, dizemos que retorna contra a própria pessoa boa parte da pulsão destrutiva, que fica impedida de sair de dentro do próprio indivíduo e produz danos a ele próprio. Distúrbios alimentares, toxicomanias e adicções, exposição a riscos, comportamentos desafiadores dos limites, automutilações, descuidos com o próprio corpo e inobservância de medidas de proteção, uma reminiscência de sensação…

A adolescência costuma ser o período vital em que mais se identificam as automutilações. São muitos os relatos de jovens que se cortam, se infligem lesões, em uma tentativa desesperada de aplacar momentaneamente a dor psíquica, um sentimento inominável, de que a atenção é desviada para a dor do corte. Se pudermos imaginar o tamanho do sofrimento deste sujeito, cuja única saída para a dor é provocar-se outra dor! Igualmente sofridos são os transtornos de angústia, hoje chamados de síndromes do pânico e outros, são ativados quando o aparelho psíquico faz uma primeira tentativa de ligação, de atribuição de sentido, mas ainda não consegue recursos para dar conta do montante de ansiedade que ficou instalado no sujeito em uma primeira vivência de excesso.

Há também pessoas em que os sintomas incessantes “caminham” pelo corpo (sempre apresentando desconfortos físicos que se deslocam, passeando de órgão a órgão, ou de membro a membro, muitas vezes semelhantes a doenças orgânicas severas. Após investigação, descartados os riscos físicos, aquele sintoma some e aparece outro sintoma surge em outro lugar, aparentemente desconectado do primeiro). Essas entre outras são indicações de que o aparelho psíquico não está conseguindo direcionar a energia que circula dentro de si e todos os afetos, desde os mais hostis até mesmo os amorosos, não estão sendo transformados de modo a permitir ao sujeito livrar-se da tensão desprazerosa sem infligir-se danos. Nestes casos a análise auxilia na construção de novas formas de lidar com os afetos, ampliando os recursos psíquicos e a capacidade de suportar as frustrações que a realidade impõe; manejar os afetos de forma saudável sem necessitar fazer o próprio corpo pagar, a preços altos, pela incapacidade de direcionar a raiva, a tristeza, a solidão, o medo.

É importante salientar que nem todos os adoecimentos físicos são oriundos de fontes emocionais, exigindo sempre um trabalho multidisciplinar em saúde. No entanto, muitas vezes a busca de um espaço privativo de pensar e ouvir a linguagem simbólica do seu corpo pode ser a abertura de novas vias de escoamento dos afetos que se ligam às angústias, que são próprias do viver, da condição humana.

 

Carolina Camara Soares Pasinato

Psicóloga – CRP 07/14811

Psicanalista, membro associado da Sigmund Freud Associação Psicanalítica, especialista em avaliação psicológica e gestão de recursos humanos. Atua com psicanálise para crianças, jovens e adultos; orientação profissional; palestrante e coordenadora de grupos de estudos em psicanálise e saúde