Setembro Amarelo: considerações sobre o suicídio e a fragilidade psíquica
11 setembro 2017 |
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Desde 2014, o mês de setembro passou a ser a época em que, no Brasil, se dedica a falar sobre um assunto que ainda é tabu: a intenção é alertar a população sobre o suicídio no Brasil e no mundo. Falar sobre a morte é evitado por muitas pessoas, mais ainda quando envolve uma deliberada agressão contra a própria vida. A Associação Internacional para Prevenção do Suicídio vinculou a campanha ao dia 10 de setembro, dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. Ainda vemos muito preconceito e impressões equivocadas sobre as pessoas que, infelizmente, sucumbem a esta séria e delicada falha na saúde mental e emocional.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que a cada 40 segundos ocorre um suicídio no mundo – aproximadamente 32 brasileiros por dia! Este dado é alarmante, porque a cada suicídio efetivado, existem muitas outras pessoas que fizeram ou pensam em fazer uma tentativa, e, na maioria dos casos, a tragédia poderia ter sido evitada. Entre as pessoas com maior risco, estão as que passam por um momento de crise, em qualquer um dos aspectos de sua vida; abuso de substâncias (lícitas ou ilícitas), impulsividade, até transtornos decorrentes de estresse agudo, dores crônicas, além de muitas outras condições que fragilizam o sujeito; enfim, são muitos os pontos críticos que podem expor uma pessoa a este risco.

A intensidade com que jogos virtuais como o “Baleia Azul”, seriados e outros elementos da atualidade que incentivam o atentado contra a própria vida e automutilações trazem à tona o tema do suicídio, que precisa ser encarado como um problema de saúde pública – lembrando que não é algo que surgiu neste momento, mas uma condição inerente à fragilidade psíquica do ser humano. Com outras roupagens, adaptadas ao contexto, e sob outros panos de fundo, a questão do suicídio é antiga na humanidade, e tende a vitimar pessoas que estejam passando por um momento de vulnerabilidade emocional. O estigma ainda existente sobre os transtornos mentais torna mais difícil para a pessoa que está passando por problemas graves buscar ajuda, temendo o preconceito, o julgamento e represálias por parte da sociedade, de seus grupos e da própria família.

A preocupação atual circunda os adolescentes, que, devido a todas as transformações físicas e psicológicas que enfrentam neste período vital, podem tornar-se vítimas de pessoas manipuladoras, cuja estrutura perversa encontra gozo em ver o sofrimento e o poder que exercem sobre outros mais frágeis. No entanto, em outras faixas etárias, os casos de suicídio se registram. E, para nos preocupar ainda mais, as estatísticas não conseguem alcançar a real dimensão do problema, já que inúmeros casos de tentativas sequer são registrados ou identificados.

É preciso deixar claro e abrir espaço para a reflexão sobre a influência destes fatores externos sobre um psiquismo já fragilizado. Somente se deixam levar por estes jogos perversos aqueles que já estão em uma situação delicada de impossibilidade de lidar com as pressões da vida, de seu momento, do papel social que representam. Os jogos apenas se engatam em algo que já está claudicante na estrutura interna deste aparelho psíquico, que encontra nome para expressar sua iminência de aniquilamento. E nem sempre há vinculação com tais propostas da “moda”. A cada dia, ocorrem milhares de suicídios sem qualquer relação com as ondas do momento, e as tentativas entre os adolescentes, incluindo as automutilações, são um fenômeno preocupante que há muito acompanha este período complexo e de difícil travessia.

Como dito acima, não cabem julgamentos e lições de moral. O que importa é ficarmos atentos aos nossos entes queridos, observando sinais de mudanças no padrão de comportamento: isolamento social e familiar, permanência em redes sociais ou internet sem que os pais ou responsáveis possam acessar os conteúdos, contatos com pessoas desconhecidas, assuntos relacionados à morte, autodepreciativos ou qualquer outra forma, sem que haja abertura para a conversa a respeito; alterações no sono, no humor, lesões corporais, entre tantos outros sinais. Para identificá-los, a família precisa ter uma estrutura de confiança básica e cuidado recíproco, para perceber mudanças sutis e abrir caminho para o diálogo, ajuda e limites. O sofrimento emocional ou psíquico existe independente de aparentemente “não ter motivos para isso”; sentir-se acolhido em sua dor é fundamental para o processo de pedir, aceitar e receber ajuda.

 

Carolina Camara Soares Pasinato

Psicóloga – CRP 0714811

Psicanálise e Orientação Profissional

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