Uma breve história do amanhã
10 março 2018 |
Compartilhe:

Quando saiu no Brasil “Sapiens” (L&PM), do historiador israelense Yuval Noah  Harari, fui um dos primeiros jornalistas a me encantar. Ninguém falava dessa obra, que ainda não era campeã de vendas entre nós. Escrevi aqui uns seis artigos sobre o livro. Depois, veio “Homo Deus” (Cia. das Letras) e ambos viraram best-sellers também no Brasil. Meu amigo Dr. Alcides Stumpf me presenteou com “Homo Deus – uma breve história do amanhã”, que ele considera ainda melhor do que “Sapiens”. Difícil escolha. Um falava do passado com conhecimento de causa. O outro fala do futuro com muita informação e as inevitáveis especulações. O primeiro era luminoso. O último tem algo de sombrio, de distópico, de assustador, de inquietantemente provocativo.

“Homo Deus” poderia render uma centena de textos. Basta abri-lo aleatoriamente depois da leitura e tem lá uma frase sublinhada para ser comentada. Faço o teste. Caio na página 278. Marquei duas passagens: “Os principais produtos do século XXI serão corpos, cérebros e mentes, e o abismo entre os que sabem operar a engenharia dos corpos e cérebros e os que não sabem será muito maior que entre a Grã-Bretanha de Dickens e o Sudão de Mahdi. Na verdade, será maior do que a brecha entre os Sapiens e os neandertais”. Haverá, como sugere o autor, uma elite de super-humanos e uma massa de humanos “inúteis vivendo como frangos em aviários administrados por máquinas que os conhecerão melhor do que eles mesmos garantindo-lhes bem-estar com a injeção de substâncias corretivas para qualquer deficiência?

A segunda passagem sublinhada nessa página é esta: “Se Marx voltasse a viver hoje em dia, provavelmente incitaria seus poucos discípulos remanescentes a ler menos O Capital e a estudar a internet e o genoma humano”. Será que os “poucos discípulos remanescentes” de Marx passam, de fato, o tempo lendo “O Capital”? Harari, contudo, quer dizer apenas que o passado não pode explicar um futuro revolucionado pela ciência e pela tecnologia. Fecho o livro. Abro de novo ao acaso. Caio na página 346: “Logo os livros estarão lendo você enquanto você os lê”. Segundo Harari, a leitura de livros eletrônicos já ultrapassou nos Estados Unidos a dos livros impressos. Os dispositivos eletrônicos de leitura vão cada vez mais auscultar cada reação do leitor:

“Por exemplo, o seu Kindle pode monitorar quais partes do livro você lê depressa e quais lê devagar; em que página fez uma pausa e em que frase abandonou o livro para não voltar mais a ele (…) Se o Kindle tiver um upgrade para reconhecimento facial e sensores biométricos, pode saber como cada frase que você lê influencia o seu batimento cardíaco e sua pressão sanguínea”. Esses dados permitirão saber melhor o que oferecer aos leitores, o que reescrever e como produzir um best-seller. O livro em papel está com os dias contados. Há pessoas que detestam saber disso e recusam essa profecia. É uma questão geracional, afetiva, de hábito. Quando o papel se disseminou também houve muita resistência. Temia-se a perda da memória natural.

Pulo duas páginas. A passagem sublinhada é forte: “Nesse processo, será revelado que o indivíduo não é senão uma fantasia religiosa. A realidade será uma malha de algoritmos bioquímicos e eletrônicos, sem fronteiras bem definidas, e sem centros de controle individuais”. Para Harari as ciências biológicas estariam provando que não somos indivíduos e que não temos alma nem consciência. Seríamos apenas o produto de bilhões de reações eletroquímicas. Exemplares, não indivíduos, de uma espécie, essencialmente tão diferentes uns dos outros quanto dois frangos de aviário. Que perspectiva confortante.

Yuval Harari acredita que estamos a caminho do pós-liberalismo. O humanismo liberal baseava-se na ideia de unicidade do indivíduo, que ninguém poderia conhecer melhor do que ele mesmo. Agora, aplicativos já estariam aptos a saber mais sobre mim do que eu mesmo. O autor provoca: “Hábitos liberais, como eleições democráticas, irão se tornar obsoletos, porque o Google será capaz de representar até mesmo minhas opiniões políticas melhor do que eu mesmo”. Cometemos erros quando votamos por distração, ignorância ou incapacidade de escolher racionalmente. Acabamos elegendo quem nos arruína. Harari cutuca: “Eu poderia ter me salvado de tal destino com o simples gesto de autorizar o Google a votar por mim”. A escolha do algoritmo é mais racional.

O leitor para e pergunta: esse cara está nos gozando? Quer nos assustar? Fala sério, meu! Ele está falando. De vez em quando, relativiza para não se comprometer demais. Não garante que tudo vai acontecer. Seriam tendências. Adepto de um darwinismo radical, faz uma pergunta apavorante: o que acontecerá “quando ricos e pobres estiverem separados não apenas pela riqueza, mas também por brechas biológicas reais?” Para ele é isso que vai ocorrer. Bilhões de pessoas não terão mais utilidade no pós-trabalho e poucos se beneficiarão dos superpoderes da tecnologia e da ciência. Ele não parece achar ruim.

 Coluna do autor publicada dia 24/02/2018 no Correio do Povo