Entrevista
Do Senegal a Ibirubá, um pouco da história de Maodo Diop
12 agosto 2019 | Entrevista
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Com uma área um pouco menor que o estado do Paraná, o Senegal é um país localizado na África Ocidental que alcançou a independência apenas em 1960. Antes, era colônia da França, que explorou o território ainda no século XIX. A disputa europeia culminou em conflitos no continente e até hoje várias regiões sofrem com as marcas das interferências bélicas ou políticas.

Cerca de 12 milhões de pessoas vivem em Senegal, a grande maioria jovens. A economia é fraca e não há trabalho para a mão-de-obra e a alternativa que resta é migrar. Assim como muitos, Maodo Diop fez essa escolha, sair do país de origem, buscando uma vida melhor, digna de qualquer cidadão.

Maodo nasceu em Senegal em 31 de março de 1984 e logo sofreu com os problemas sociais. Depois de um longo processo, finalmente conseguiu vir para o Brasil. Em 2014 mudou-se de Passo Fundo para Ibirubá, atraído pela oferta de emprego. Atualmente ele reside em uma casa no Bairro Progresso.

A Reportagem do Jornal VR visitou o carismático cidadão. Indagado sobre o dia a dia em Ibirubá, foi claro: “A cidade é boa de morar, calma e tem muita gente boa aqui, mas assim como tem gente boa, tem gente ruim”.

No desabafo, revelou que o racismo está presente diariamente nos lugares que frequenta. E, embora a ser uma cidade boa, a principal dificuldade tem sido conviver com as manifestações explícitas de racismo praticadas por alguns moradores contra ele e seus amigos.

“Acontece todo dia, a gente caminha por aí. Tem pessoas que atravessam a rua para não passar por nós na calçada, tem umas que até a mão no nariz colocam ou passam a mão no braço, demonstrando a cor, tem os comentários que a gente ouve, os dedos apontados, risadas irônicas, uma situação muito triste. Diminuiu bastante nos últimos anos, mas ainda tem muito”.

Ferido por disparos de arma em fevereiro de 2015, no Bairro Progresso, Maodo trabalha numa marmoraria cortando pedras de mármore e granito. “Tenho muita dor, no trabalho é menos por que fico mais parado cortando, mas quando tenho que fazer força, ou caminhar, dói muito”. Ele revelou que nestes quatro anos nunca parou de trabalhar, e não consegue se benefícios da saúde pela falta de laudos. Sobre o caso, relatou que foi uma completa injustiça, um ato extremo de racismo e que, na época, os agressores ainda tentaram culpá-lo.

De orientação religiosa muçulmana, ele descreve uma rotina que se resume da casa para o trabalho. “Só saímos para caminhar um pouco pela cidade e voltamos. Não frequentamos bares, bailes, nem a casa de ninguém. Só estamos aqui por causa do trabalho. Somos todos seres humanos.”

Mau atendimento

O advogado Luiz Alfredo Galas, da Associação Passofundense de Senegaleses, destacou que a entidade está preocupada com quatro pontos específicos: a saúde de Maodo, a assistência pública no caso, falta de compreensão e o encaminhamento (ou falta dele). “Há uma pessoa com direito a assistência à saúde e social, com dor, de causa desconhecida, trabalhador de uma empresa em Ibirubá, que precisa ter resposta a atendimento adequado para o encaminhamento necessário”, afirmou.

O rumo começou a mudar semana passada. Em consulta particular, um urologista recomendou a busca de um médico ortopedista, pois há uma bala alojada no corpo de Maodo. O Posto de Saúde enfim fez o encaminhamento e os exames aguardam análise.

Como qualquer trabalhador, Maodo contribui com o INSS e por isso poderia conseguir o afastamento das atividades. Em contrapartida, a falta de encaminhamento para buscar a origem da dor, via SUS, impede isso, já que ele não têm os devidos laudos para apresentar no INSS.

Ao VR, a secretária de Saúde Dileta das Chagas destacou que a SMS prestou todos os atendimentos necessários nesses quatro anos, mas que não há como fornecer atestados devido à falta de exames comprovando o ferimento.

O processo judicial corre nas esferas criminal e cível.