Coronavírus Saúde
Em tempos de pandemia, um possível resgate da condição humana
24 abril 2020 | Coronavírus Saúde
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O ano 2020 já começou com acontecimentos intensos. O redor do mundo, conflitos e tensões entre países, incêndios, crise energética, chuvas em excesso em alguns locais, em outros estiagem, e agora, uma pandemia que pôs todos em alerta. Termos como quarentena, distanciamento e isolamento social, antes pouco usados, somente em situações específicas, passam a fazer parte do dia-a-dia. O uso de máscaras, luvas, a insistente preocupação com a higiene, são coisas que em nossa região pouco se viu, e pareciam ser pertencentes a uma realidade que nunca se aproximaria de nós. Transposição temporária (e sem data prevista para fim) da vida presencial para o mundo virtual, quando possível. Famílias que talvez pela primeira vez permanecem mais tempo reunidas nos lares, dividindo espaços, tempos e angústias.

Há algum tempo as epidemias ficavam isoladas nos arredores dos locais de origem, tendo uma disseminação global muito mais lenta do que hoje. Na atualidade a facilidade de deslocamento, um símbolo da liberdade do ir-e-vir, acabou tornando-se mensageira do medo. Nos tempos de hoje, algo simples como um espirro desperta verdadeiro pavor em algumas pessoas, e a dureza da finitude da vida toma a todos, com maior ou menor intensidade.

O cenário atual é mais do que suficiente para acionar a imaginação e os piores fantasmas de cada um, e enquanto uns se debatem, negando dolorosalemente a seriedade do momento, outros sentem-se tomados pelo desespero e pela impotência. De toda forma, vemo-nos todos cerceados de nossa liberdade, de ir e vir, de circular pela vida, pelos lugares, de abraçar aqueles que nos são queridos. Este momento de dor e incertezas pode ser a oportunidade de que precisávamos para redimensionar valores. E antes que alguém se adiante ao julgar aqueles que pensam diferente de si, alerto que me refiro aos valores individuais, e esta crítica só pode ser realmente feita quando deixamos nossos orgulhos de lado e olhamos para nós mesmos. Olhar para si, sem importar o que o outro esteja fazendo, e avaliar que pesos e que medidas norteiam as nossas decisões, diárias, a cada instante. A rotina tem uma velocidade que nos impede muitas vezes de pensar, de analisar se estamos sendo empurrados ou atropelados pelas demandas da sociedade (papéis a representar, contas a pagar, imagens para manter). Agora que fomos arrancados da rotina enlouquecedora e estamos sendo forçados a reinventar formas de viver, mesmo que temporariamente, é o momento para nos redescobrirmos. Quem sou eu de verdade? De que gosto? O que e quem é importante para mim? Tenho espalhado o bem ou o mal ao meu redor? Minhas motivações tem sido a vaidade ou a realização pessoal? São tantas as perguntas… Mas provavelmente nunca antes demos tanto valor ao calor de um abraço. O trabalho, que pode ser muitas vezes um martírio, passa a ser um lugar de redenção.

É claro que não podemos acreditar ingenuamente que a humanidade dará um salto evolutivo, que, findo o perigo da pandemia, todos terão se encontrado com seus ideais mais elevados e o mundo será certamente um lugar melhor. Certamente será um lugar diferente, não mais o mesmo, não seremos nós os mesmos de antes. Mas todos temos a oportunidade de, agora, termos mais clareza de que pessoa queremos ser, que legado queremos deixar ao mundo e com que intensidade desejamos viver. Podemos descobrir agora com quem podemos contar, e o quanto estamos disponíveis para ajudar aos mais próximos. Descobrimos quem são as pessoas que realmente nos importam, e sem as quais a vida fica menos colorida. E também descobrimos que não podemos ser completamente felizes sabendo da fome do outro. O momento pede muito mais do que empatia, pede respeito e responsabilidade.

Sua casa pode ser uma prisão ou pode ser um lugar a salvo; o convívio em família pode ser uma diversão ou pode ser fonte de estresse. Os compromissos financeiros continuam com seus prazos, as responsabilidades permanecem, e temos que reaprender a conhecer nossos limites. Mas sem sombra de dúvida sairemos todos mais fortalecidos e com mais recursos para suportar os imprevistos e dificuldades da vida – que não serão poucas. Que possamos aproveitar esta oportunidade e resgatarmos, cada um de nós, um pouco mais de nossa humanidade, para podermos crescer com toda esta experiência!