Especial dia da mulher
23 março 2020 |
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Março é o mês do ano em que os debates sobre a questão de gênero ganham força, graças ao Dia Internacional da Mulher, 08/03. Pensando nisso, durante o mês de março o Jornal da Integração vai entrevistar quatro mulheres incríveis, uma por semana.

Essas mulheres irão nos falar um pouquinho sobre suas vidas, os principais desafios que a mulher enfrenta hoje em dia e como elas conseguiram vencê-los, para assim, se tornarem quem são hoje em dia.

A entrevistada da semana é Kelly Cristina Lopes, 50 anos, natural de Tapera. Hoje, atua como empresária do ramo de Assessoria de Projetos e Produção de Eventos em geral.

 

Conte-nos um pouco da sua história:

“Nascida em Tapera e filha de Valdemar Maciel Lopes (in memorian) e Iris Maria Lopes, tenho dois irmãos Charles e Maicon, cunhada Adriana e o anjo da minha vida Felipe, meu sobrinho. Estudei nas Escolas Públicas Dionísio Lothário Chassot e no Instituto Imaculada, iniciando no Científico e em seguida migrando para o Técnico em Administração e também Técnico em Contabilidade, tendo em vista o meu primeiro emprego.

Comecei a trabalhar aos 14 anos como auxiliar de serviços gerais e recepcionista na Prefeitura de Tapera em 1984, onde tive a oportunidade de aprender muito com várias pessoas. Trabalhei em vários locais na parte administrativa. Tive um bazar de produtos e utensílios gerais junto com minha mãe, mas sempre sonhando em voltar a estudar. Mudanças na vida pessoal me fizeram voltar aos estudos. Em 1999 prestei vestibular para o Curso de Educação Física – Licenciatura Plena na Unicruz, o qual tive a alegria de passar em 4º lugar na média geral. Era uma turma com 95% adolescentes saídos do 2º grau e poucos com mais idade como eu. Posso afirmar que foi um enorme desafio cursar a faculdade, pois além de ser caro, na época estava suspenso o crédito e financiamentos estudantis, para não desistir, a solução foi vender algumas coisas, prestar serviços em eventos e arbitragens, pois tive um período sem trabalho remunerado.

Do jeito que conseguia, o pai ajudava a ir pagando as prestações e outras fiquei devendo até conseguir financiamento parcial para pagar após formada. Os livros sempre foram emprestados de amigos e colegas, os materiais em geral e os “tênis”, usava do meu irmão, quando não servia mais, e da minha amiga e irmã Cristina, de Panambi, que jamais me deixou faltar nada, me ensinou muito sobre as disciplinas que nunca tinha ouvido falar e me abrigou muitas vezes na casa dela para fazer trabalhos.

Fazer uma faculdade foi um divisor de águas na minha vida, lá me interessei em fazer os eventos que o curso exigia e criei o gosto pela área. Me formei e em seguida ingressei no Curso de Especialização em Educação Física Escolar – Ciências do Movimento Humano. Atuei na área do esporte e projetos esportivos, bem como dando aulas de ginástica e personal trainer com atendimento domiciliar.

Tive oportunidades de trabalhar no Município de Tapera junto a Secretaria de Educação, Cultura e Desporto, com projetos e eventos, que me fizeram a aprender com as equipes que trabalhei e a buscar qualificação, capacitação na área cultural com mais subsídios e conhecimento. No ano de 2005 surgiu o convite para trabalhar como Agente de Cultura e Lazer no SESC Unidade de Carazinho, onde aprimorei e aprendi muito mais, pois investem bastante na qualificação dos seus colaboradores. Por motivos pessoais resolvi me demitir e voltar a Tapera, onde tive o privilégio de retornar a Prefeitura para uma nova gestão que entrava, assumindo a pasta da cultura e eventos. Entre idas e vindas, foram praticamente 20 anos de serviço público onde encerrei esse ciclo em 2018 por decisão própria.

Chega um momento da nossa vida em que ousar, traçar objetivos novos, acreditar e trabalhar pelos próprios projetos e sonhos se faz necessário.  Diante disso, em 2018 nasceu a minha empresa, K.LOPES – Assessora e Produção de Eventos. Por isso, busquei mais cursos na área de projetos e eventos, em especial nas áreas de Comunicação, Liderança, Inteligência Emocional, Desenvolvimento Pessoal, Habilitação na Produção de Eventos entre outros. Hoje estou me reinventando e entendendo esse ramo de ser empreendedora, dona do próprio negócio. Minha empresa é pequena, mas mesmo assim, contribui para o crescimento do município, é a minha fonte de renda e oportuniza trabalhos eventuais para mais pessoas. Desenvolvo trabalhos na cidade e na região, prestando serviços a entidades, empresas e prefeituras.

Posso afirmar que estou realizada fazendo o que faço e me desafiando a buscar o meu melhor a cada nova etapa, pois minha missão é prestar um serviço eficaz e de qualidade, visando atender as expectativas das pessoas que me contratam. Desenvolvo meu trabalho com planejamento detalhado, com dedicação e muito amor, pois faço valer a confiança das pessoas em mim. Agradeço a credibilidade e as oportunidades que tive e tenho na minha cidade e região.”

 

Atividades de lazer:

“Quem me conhece sabe que adoro uma festa, rodas de violão e gaita, muita cantoria, amo reunir amigos, estou sempre inventando algo quando não tenho compromissos de trabalho. Ir a shows então, é algo que me fascina. Sempre gostei de ler e a nova fase profissional exige mais leitura, pesquisas, acompanhamento das novidades para aprimorar as áreas que estou atuando.”

 

Como você considera os ambientes de trabalho atuais em relação a homens e mulheres? Você acha que ainda existe muita divisão?

“Essa diferença ainda existe. É cultural. Foram anos assim, na maioria os homens trabalhando fora para o sustento da família e a mulher criando filhos e fazendo os serviços em casa. Aos poucos os ambientes e as oportunidades estão mudando, as mulheres trabalhando fora, mas ainda existe muita divisão e preferências pelos homens em cargos e salários superiores. Acredito que quanto mais nós mulheres nos prepararmos e acreditarmos na nossa capacidade, mais espaços vão surgir, é claro, muito disso depende dos líderes e gestores em ter essa sensibilidade e não achar que estamos concorrendo com eles. Muitas vezes, a gente sente que precisa estar sempre provando nossa competência para merecer reconhecimento e oportunidades.

Na política o espaço para as mulheres sempre foi encarado como “preencher vagas porque a lei exige.” Observo que está diminuindo, todavia ainda existe. Contudo, depende de cada uma em aceitar ou batalhar para ocupar o seu espaço também nesse ramo. Temos exemplos de mulheres com excelente desempenho, atuando com brilho e competência nas suas funções. Eu não me contento em apenas “preencher e ocupar espaço” em situação alguma da vida.  Não vim a esse mundo para o comodismo e conformismo. Aprendi a batalhar pelo meu espaço.

Sempre me questiono: se as mulheres são em maioria, porque deixamos os homens ocupar a maioria dos cargos e espaços? Ao meu ver o que falta para nossa classe é mais união e mais incentivo uma com a outra.”

 

Conte-nos sobre um sonho realizado e outros a realizar:

“Tudo que mais sonhei na vida eu realizo todos os dias: ser uma mulher independente! Posso dizer que passei por um período de muitas perdas pessoais e materiais, dor e decepções, todavia me reerguer e reconstruir minha vida é uma realização. Fiquei sem nada e com isso aprendi a desapegar das coisas materiais e entender que ter o básico para viver legal é o suficiente. Consegui comprar meu apartamento, tenho carro próprio, nada chique, mas que estão pagos e são meus. Isso é mais um sonho realizado.

Sonhos a realizar, além dos sonhos pessoais, de poder viajar bastante, vou destacar um deles: trabalhar e estudar muito para que minha empresa seja reconhecida como referência nas áreas que atuo, gerando emprego e renda.”

 

O que te inspira na sua caminhada?

“Com toda a certeza o que me inspira é a minha “família”, do jeitinho que ela é. Entre erros e acertos, defeitos e qualidades é minha maior inspiração. Sou filha de eletricista e de dona de casa que constituíram nossa família na simplicidade e na dificuldade, porém sem jamais deixar de nos educar com valores e princípios. Cada momento e situação que passei só me reergui pelo amor que tenho por eles.  O que me move, me inspira e me faz ter esperanças, é a minha fé na espiritualidade. Creio na força de um ser superior, daquele que é justo e que nos faz colher tudo que plantamos.”

 

 

Conselho para mulheres que estão começando sua caminhada profissional

“Não há conselho nem receita. Tudo é vivência e aprendizado. Eu continuo a caminhada em busca da evolução pessoal e crescimento profissional. Primeiro precisamos nos amar como seres humanos, ter orgulho da nossa origem e de termos nascido mulheres. O que nos diferencia uma das outras, é a busca, o preparo, o querer, o encarar o que vier por seus objetivos, é batalhar pelo nosso espaço por merecimento, é ousar e enfrentar os próprios medos, é ter humildade, sempre vamos cometer erros e cair, mas corrigir e levantar mais forte. É admitir que as mudanças começam em nós, de dentro pra fora. Sempre falo que ninguém dá o que não tem e não sente. Nós Mulheres somos sensíveis e fortes. Temos habilidades de fazer várias coisas ao mesmo tempo, somos multitarefas. Acredito que nós mesmas precisamos levar adiante o “empoderamento feminino” sim, todavia que isso não nos faça esquecer nossos princípios e valores.”

 

Mensagem final:

“Amar e agradecer a vida! Vivi a maior experiência da minha vida quando me deparei com a impotência frente as dificuldades de doença na família e de muitas pessoas desesperadas numa emergência de hospital, nos corredores, na CTI, nas salas de cirurgias, sem notícias por incansáveis horas para saber de nossos familiares, se sairiam vivos ou não, tudo que vi e senti na carne me fez pensar no real valor da vida. Nada somos quando estamos doentes. Aprendi a nunca mais reclamar e somente agradecer. Aprendi a valorizar cada dia que acordo com saúde para seguir. Todos viemos a esse mundo com alguma missão, às vezes não sabemos qual é, mas uma coisa é certa, enquanto estivermos aqui, façamos valer a pena. Faça por merecer o melhor. Não se contente com o mais ou menos.  Seja dona da tua vida e tenha opinião própria. Se tiver medo, encare, no máximo precisará mudar de planos. Se prepare para assumir oportunidades quando elas chegarem. Seja humilde para assumir erros e aprender com eles. Goste de você e seja feliz como você é, só assim poderá estar feliz com as pessoas e viver bem em comunidade. Acredite em você e tenha Fé na espiritualidade. Seja simples, não esqueça tua origem e das pessoas que te estenderam a mão. Trabalhe, estude, brinque, chore, dance, grite, sorria, cante, namore… viva! Não sabemos quanto tempo temos aqui, então vamos aproveitar.”