Família relata luta de jovem de onze anos contra o câncer
10 setembro 2018 |
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Sempre muito simpático e educado, querido por todos, o jovem Lúcio Marques Leonardi cursa o 6º Ano do Ensino Fundamental da Escola Santa Teresinha, em Ibirubá. Ele nasceu dia 20/11/2006, filho da fonoaudióloga Marluce Giuliani Marques e do mecânico João Luiz Vieira Leonardi, irmão de João Vitor (17). Os últimos meses foram de muita luta e superação do jovem: ele descobriu que sofria de leucemia no início do ano.

Acompanhe o relato emocionante dos pais e do corajoso jovem, de apenas onze anos de idade.

 

Como vocês descobriram que o Lúcio estava doente?

Os primeiros sintomas da doença do Lúcio começaram a aparecer dia 28 de fevereiro, data que coincide com o aniversário de Ibirubá. O primeiro sinal da doença foi o cansaço, como se fosse início de uma gripe. Só que o cansaço foi aumentando e a gripe não apareceu. No terceiro dia, apareceu uma febre, que baixava com antitérmicos e depois não mais.

Ele estava em acompanhamento médico em Ibirubá há uma semana, inclusive em tratamento com antibióticos, até que foram realizados os exames de sangue, totalmente alterados. Repetimos os exames, pois os resultados foram assustadores. Com os resultados confirmados e em mãos, fomos encaminhados direto a Passo Fundo. Embora o médico não usou o termo “leucemia”… nós já sabíamos o que era.

Qual foi o impacto da notícia para a família?

Para nós não foi saber que era leucemia e sim quando descobrimos o tipo da doença. Até ser realizada a biópsia da medula óssea, achávamos que a leucemia do Lúcio era a Infantil, conhecida como LLA, que tem chance de cura de 90%. Mas a biópsia apontou que o nosso filho tinha uma leucemia do tipo LMA, rara em crianças, muito mais agressiva, e com uma chance de cura reduzida a 60%. Entre todos os tipos de câncer que mais matam no mundo, a LMA ocupa a 6ª colocação.

A partir daí, como se deu o tratamento?

Desde o dia 28/2, quando iniciaram os primeiros sintomas da doença até o dia 09/3, que o Lúcio baixou no Hospital São Vicente em Passo Fundo, se passaram nove dias. Os médicos especialistas falaram que mais dois dias sem tratamento levariam nosso filho a óbito. O Lúcio teve 23 dias consecutivos de febres muito fortes e que não baixavam com nenhum tipo de medicação, só começaram a ceder após o primeiro ciclo de quimioterapia.

Foram cinco ciclos de quimioterapia e mais quatro quimioterapias intercaladas, que são realizadas diretamente na medula, feitas no bloco cirúrgico e com a necessidade e anestesia geral. No total, nosso filho realizou 82 quimioterapias e inúmeras transfusões de sangue e plaquetas. Também fez uso de antibióticos, anti-inflamatórios, antialérgicos e antitérmicos.  A base do tratamento foram as quimioterapias. As transfusões serviram para ajudá-lo a se recuperar do que a quimio destruía, pois elas destruíam as células malignas, mas também as boas.

    Lúcio Marques Leonardi durante o tratamento

Como a família lidou com a situação?

Após cada ciclo de quimioterapia, imaginávamos nosso filho como uma plantinha no deserto, que não se enxergava mais, mas após uma chuva, ela começava a brotar… assim era o Lúcio a cada transfusão. Não temos como descrever a situação pela qual passamos. Cada dia era um dia de vida a mais que Deus dava ao nosso filho. Vivíamos um dia de cada vez. Foram 100 dias de internações e, durante esse tempo, teve algumas tentativas de alta que não deram certo. Também ficou por nove dias na CTI pediátrica do HSPV, em estado crítico.

Houve bastante apoio dos amigos e comunidade?

O apoio dos amigos e da comunidade foi algo indescritível. Primeiro pelas doações de sangue, que foram muitas, chegou a ter pessoas que doaram duas vezes, em um primeiro momento e três meses depois doaram novamente. Ficamos sabendo que foram criados grupos de WhatsApp com o nome de “Doadores de sangue do Lúcio”, isso não tem dinheiro nenhum no mundo pague. Nós não sabemos de todas as pessoas que doaram, pois o hospital mantém em sigilo, mas gostaríamos de poder abraçá-las e agradecer pessoalmente a cada uma delas. Teve pessoas que foram nos levar e buscar em Passo Fundo, que nos levaram um casaco quando o frio chegou. Quando o Lúcio não conseguia comer, algumas pessoas levavam chocolates (pois era o que ele podia comer). Também recebemos doações em dinheiro (anônimo), vale combustível e, até mesmo, quando íamos pagar uma conta, nos devolviam o dinheiro. O CTG Rancho dos Tropeiros realizou um jantar em prol do Lúcio, todas as fichas se esgotaram em poucas horas, muitos nem foram ao jantar, mas compraram para ajudar. As orações e pedidos de cura para o nosso filho foram tantas e tão fortes que sentíamos a força e o poder das orações em Ibirubá. Nosso pequeno grande guerreiro contou com uma comunidade inteira rezando e intercedendo por ele. Tivemos apoio e orações de várias religiões daqui e de outros municípios, e até mesmo de outros estados. Também teve aquelas pessoas que convidavam e até mesmo levaram uma comida quentinha para o nosso outro filho, que ficou sozinho por muito tempo em casa. Em Passo-Fundo, tivemos antigos ibirubenses que abriram suas casas, inclusive nos deram a chave. Também amigos de Passo Fundo se solidarizaram muito.

   Com os médicos Pablo Santiago, Marcelo Cunha (a Dra Caroline Fincatto “faltou na foto”)

Vocês gostariam de fazer um agradecimento?

Gostaríamos de agradecer primeiramente a Deus, pois foi através da nossa fé, no poder da cura dEle que não sucumbimos nos momentos mais difíceis. Agradecer à equipe médica, que cuidou do nosso filho com toda a competência e carinho que se deve ter, principalmente com crianças: Dr. Pablo Santiago, Dr. Marcelo Cunha Lorenzoni e Dra. Caroline Fincatto da Silva, ao Hospital São Vicente de Paulo pela humanização de todos os seus funcionários, à Liga Feminina de Combate ao Câncer de Ibirubá pelos vales combustíveis, às Secretarias de Saúde de Ibirubá e Tio Hugo pela ajuda e disponibilidade, ao CTG Rancho dos Tropeiros pela ajuda financeira e emocional, à Escola Santa Teresinha pelo apoio incondicional nas doações de sangue, pelas orações e por mostrar ao Lúcio, que, mesmo longe, ele estava presente na escola, pois em seis meses de afastamento da sala de aula, seu nome sempre foi dito na chamada e alguém sempre respondia por ele.

Não temos como denominar as pessoas, comunidades, religiões, empresas e os grupos de orações… pois coremos o risco de esquecer alguém e também porque não sabemos de todas, mas o nosso MUITO OBRIGADO, de coração a todos.

 

O Lúcio responde:

Como você está hoje?

Me sentindo bem, com força e coragem novamente. 

Já conseguiu retomar a rotina normal?

Ainda não, pois tenho um cateter no peito, que me impede de realizar atividades físicas ou outras atividades que exijam mais esforços. Antes do câncer, além de ser estudante do 6º ano da Escola Santa Teresinha de Ibirubá, ia na catequese, cursava Inglês, violão e participava da Invernada Mirim do CTG.

O que mais chamou a sua atenção em todo esse episódio?

O apoio das pessoas, sendo que a maioria não me conhecia e mesmo assim, rezou e torceu por mim. Também vi que as pessoas boas ainda são a maioria no mundo.

O que você diria para alguém que passa pela mesma situação?

Para ter muita fé em Deus e confiança nos médicos, pois eu sempre acreditei na minha cura.

E o que você diria para quem vive reclamando da vida?

Queria que essas pessoas tirassem um tempo para conhecer e passar um dia ao menos dentro de um hospital, mais precisamente num centro oncológico, onde quase todos os dias morre alguém, onde tem crianças que estudam, brincam e se divertem conectadas a tubos, bombas ou agulhas e que acreditam sempre em dias melhores.

 

Conclusão

O câncer é uma guerra, e como toda a guerra, as vitórias são conquistadas através de batalhas vencidas. A primeira batalha do Lúcio foi ter sobrevivido ao tempo que ficou muito mal e internado na CTI. A segunda batalha foi ter resistido à alta carga de quimios e a terceira batalha foi o resultado da última biopsia, que deu “livre de células cancerígenas”.

Os médicos não usam a palavra cura, então sabemos que também faltam batalhas e que a guerra durará cinco anos. Mas o nosso filho se mostrou um verdadeiro guerreiro e junto a nós, sua família, continuará lutando até a última batalha a ser vencida.


Foto em destaque: Lúcio com a família