Mistério dos túneis: Prefeitura abriu a rua à procura dos túneis
4 outubro 2019 |
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O assunto suscita diferentes opiniões, afinal, todos querem saber: e os túneis? Nas duas últimas semanas os debates aumentaram, a mídia local, regional e até estadual acompanha. A história remonta ao século passado, quando supostamente fugitivos alemães chegaram a Ibirubá.

A investigação teve início em 2015, pelo jornalista Clóvis Messerschmidt, e terça-feira (1º) renovou mais uma vez o interesse da comunidade com a perfuração de um ponto indicado pelos geólogos da Ufrgs, que estiveram realizando estudos sobre o tema em junho e dezembro do ano passado.

Clóvis publicou uma série de reportagens investigativas em sua Revista Enfoque, de forma independente. Suspendeu a pesquisa por conta de ameaças a ele e sua família. A Prefeitura assumiu a responsabilidade e resolveu perfurar um dos pontos onde o georradar indicara anomalias no subsolo.

 

Abertura da rua juntou gente

A operação desta terça-feira foi montada após outra escavação feita em agosto ter encontrado uma estrutura de concreto. Como naquela ocasião não havia segurança nem um documento do Executivo Municipal autorizando o trabalho, o buraco foi fechado e o suspense permaneceu no ar.

Diante do clamor popular, que motivou sua decisão, o prefeito Abel Grave mandou os fiscais da Divisão de Trânsito fecharem a Rua Flores da Cunha, perto da esquina da Praça General Osório. Equipes da Corsan, do Corpo de Bombeiros e da Secretaria de Obras acompanharam o serviço. Foi delimitada uma área de segurança, que pouco adiantou para conter os curiosos.

A Vianna Eletrometal, num trabalho voluntário, perfurou até cerca de 2,5 metros, até a broca bater em concreto. A partir daí os bombeiros assumiram o comando, e resolveram abrir com a retroescavadeira. O sargento Ricardo Gastring, destacou que os bombeiros seriam os primeiros a descer para avaliar a condição das estruturas e os riscos.

A escavação aglomerou uma multidão

 

Tubulação de extensão indefinida

A retroescavadeira alargou a boca da escavação. Logo se descobriu que realmente era uma tubulação de concreto, de aproximadamente 1 metro de diâmetro. Nenhuma autoridade local sabia afirmar do que se tratava. Não era da rede de abastecimento de água, tampouco de esgoto, nem mesmo servia à coleta de água da chuva.

Depois que a estrutura foi encontrada, os Bombeiros desceram para limpar e averiguar. Usando uma cortadeira de concreto, marreta e a retroescavadeira para superar a resistência dos 10cm de espessura do tubo, este cedeu depois de 20 minutos, exalando forte odor de esgoto.

Segundo o coordenador de Obras Urbanas Clair Benini, a estrutura se trata de uma rede de esgoto antiga. A gerente da Corsan de Ibirubá, Lia Denise Timann, tina outra opinião: “A ‘nossa’ rede corre do outro lado da rua. (Esta) não é de ninguém, nem da prefeitura. Não sei o que é isso, mas não é de esgoto”.

 

Bombeiro entrou no buraco

Com a tubulação aberta, a broca perfurou mais um pouco, pois populares afirmaram que o túnel passava por debaixo dos tubos. Quando havia condições, o soldado Bruno Santarém entrou no buraco.

Primeiro ele foi em direção ao Fórum e depois no sentido da Rua Getúlio Vargas. Quando retornou, disse que a tubulação se estendia, rua abaixo por vários metros na Flores da Cunha. Do outro lado, caminhou por cerca de cinco metros e voltou. Lá debaixo veio mais uma novidade: havia uma parede de tijolos.

Até o prefeito foi ver. Os mais empolgados afirmavam conhecer o começo e o fim da estrutura. Bruno retornou com uma máscara, lanternas e um tubo de oxigênio às costas. Depois de alguns minutos voltou e fez o tão aguardado anúncio.

“Os túneis existem, segue até a parede de concreto, depois dobra à direita e se vai também. O caminho tem cerca de 1,5 metro de altura, todo de concreto e com malhas de ferro trançado por dentro. É uma construção antiga, robusta e bem feita. Em cima da parede de tijolos, de 1,5 x 1,5 m, há uma laje. Ao lado da parede, uma bifurcação que dá para a direita. Eu andei por ali mais uns quatro metros, mas ele segue. Eu fui sempre agachado. Mas sem dúvida é um túnel”, relatou o bombeiro.

A tubulação é extensa, antiga e não tem marcas da passagem de água ou dejetos, diz ele.

 

Rede complexa de túneis

Poucas horas após a descoberta, o Prefeito Abel, assessores, secretários e os bombeiros fizeram uma entrevista coletiva de imprensa na prefeitura, enquanto uma equipe da SMO fechava o buraco para evitar que alguém entrasse.

Abel tentou conter os boatos, por exemplo, de que o bombeiro entrou na Rua Flores da Cunha e saiu próximo ao frigorífico da IBI. Os céticos se divertiram bastante.

Equilibrado como o cargo pede, o prefeito disse que a escavação foi o ponto de partida para uma investigação mais minuciosa, com a presença de historiadores, geólogos e das universidades. E, segundo ele, esse é o próximo passo, contratar os serviços de geólogos e arqueólogos para que exames técnicos apontem o que realmente existe.

Abel destacou que é uma história presente na comunidade e no imaginário dos munícipes e por isso tem que ser desvendada. “Não estamos afirmando que existe um túnel. Tem muitas dúvidas, mas é uma possibilidade. Viramos mais uma página dessa lenda urbana. O mistério continua.”

Para o prefeito, não há um prazo definido. “Pode acontecer esse ano, semana que vem, como também apenas ano que vem, devido a outras demandas que temos na Prefeitura, mas será investigado”.

 

Alternativa para esgoto e potencial turístico

Tubulação encontrada

 

Com a ajuda de um mapa desenhado por ele mesmo, o soldado Bruno destacou que o ramal vai até próximo da esquina das ruas Flores da Cunha e Getúlio Vargas e dali segue em direção à Escola Santa Teresinha. Na entrevista, a avaliação mudou: afirmou-se que, “a princípio se trata de uma canalização pluvial”. O cheiro esgoto teria origem numa ligação clandestina.

O bombeiro levou um smartphone e uma câmera no subterrâneo. Por hora, a GM2 Filmes, produtora de um documentário trata do assunto, divulgou apenas uma foto.

Durante a coletiva, foi levantada a hipótese de tornar os tubos “clandestinos” e sem procedência uma alternativa para o saneamento básico de Ibirubá, tornando-os alternativa de escoamento do esgoto para uma estação de tratamento. Para Abel, a estrutura é muito antiga, mas é uma hipótese que pode ser levantada num próximo “Pra Frente Ibirubá”.

Agora, a principal prioridade é investigar as pistas, para que a comunidade possa saber a verdade, especialmente sobre se a cidade abrigou nazistas.

Mapa feito pelo Bombeiro Bruno Santarém

Bruno Santarém em coletiva de imprensa

 

Jornalista Clóvis, Prefeito Abel, Soldado Eduardo, Soldado Bruno, Sargento Ricardo e Secretário de Obras Vanderlei de Souza na coletiva de imprensa