Mistérios dos túneis II: Em 1979, Prefeitura instalou mais de 3.600 tubos de concreto
4 outubro 2019 |
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Depois do furor com a escavação de um ponto na confluência das ruas Flores da Cunha e Getúlio Vargas, em Ibirubá, muito se especula e, igualmente, há muito a esclarecer.

Responsável por entrar na tubulação – que agora boa parte da população acredita ser um túnel –, o bombeiro Bruno Santarém, escolhido pelo Corpo de Bombeiros para fazer o reconhecimento, teve seus minutos de fama.

“Por onde vou, sou ‘perguntado’ sobre a estrutura, até no quartel ligam e no meu telefone pessoal”, disse Bruno. Sobre a estrutura, disse estar intrigado. Segundo o bombeiro, a estrutura parece ser extensa, percorrendo toda a cidade e de forma intacta quanto ao estado.

“Não tem sujeira, não tem bicho, não tem nada. É como se tivessem feito há pouco tempo. O concreto nunca recebeu água, ele não tem marca. Me deixa intrigado, uma rede daquele tamanho, e não ser usada. A princípio seria para coleta da água da chuva, mas não tem boca de lobo”, afirma.

O Bombeiro Santarém explica que, no ponto em que foi aberta, a tubulação tinha dois lados. Um seguia por vários metros no sentido do Fórum e o outro tem uma barreira feita por uma parede de tijolos, o que normalmente é usado – e ainda é – para direcionar a água. Além disso, a presença da chapa de concreto sobre os tijolos sugere que pode tratar-se do receptáculo de uma boca de lobo.

Prefeitura e Corsan afirmam não ter conhecimento do que se trataria a estrutura. Para desvendar o mistério, o Município pretende contratar geólogos para tentar entender onde a rede começa, termina e onde coletaria água.

Na entrevista, Bruno ainda destacou que os tubos de um metro localizados, são grandes e desproporcionais ao tamanho da cidade, se a rede foi construída para escoar água. A espessura é de mais de 10 centímetros de concreto bruto.

 

Pesquisa histórica sugere outra finalidade

Para ajudar a desvendar esse mistério, a Equipe de Reportagem do Jornal Visão Regional fez uma pesquisa em publicações e registros antigos de notícias na Biblioteca Municipal Justino Guimarães Neto, com a ajuda do bibliotecário Jorge Ferreira.

Uma manchete publicada no Jornal “O Alto Jacuí” em 9 de março de 1979 diz o seguinte: “RECORD EM COLOCAÇÃO DE TUBOS, 3.619 tubos foram utilizados na construção de bueiros no interior e na cidade, conforme relação que segue (representam 3 km, 619 metros).”

Matéria de 1979 mancheteava: “RECORD EM COLOCAÇÃO DE TUBOS, 3.619 tubos foram utilizados na construção de bueiros no interior e na cidade, conforme relação que segue (representam 3 km, 619 metros)”

 

Dentre as ruas contempladas na época com tubos de 100x100cm estão a Diniz Dias (278 tubos), Gernot Schmidt (363), Mauá (58), General Osório (32) e Getúlio Vargas (quatro). No mesmo ano, em 30 de março, outra matéria tinha como título “Fábrica de tubos adquirida pela Prefeitura”. Neri Zeilmann era o prefeito, e tinha como plano o desenvolvimento da cidade. Em seu governo foram construídos os “calçadões” das ruas centrais da cidade.

Outra matéria, do mesmo ano: “Fábrica de tubos adquirida pela Prefeitura”

A matéria traz em seu conteúdo informações sobre os primeiros tubos de concretos fabricados em Ibirubá. A fábrica foi adquirida para baratear os custos do município, que antes importava da região de Lajeado materiais de concreto. Na época, a Prefeitura ainda patenteou um modelo de lajotas para construção das calçadas. O teor da matéria, porém, não permite especificar se os mais de 3,5 mil tubos instalados na época realmente são os encontrados na terça-feira. Isso requer mais investigação.

Para Jorge Ferreira, essa seria uma explicação plausível para as estruturas. “Assim que começaram a divulgar que ninguém sabia do que se tratava aqueles tubos, resolvi procurar nos arquivos da Biblioteca mais informações sobre isso e foi em 1979, em uma edição do Jornal O Alto Jacuí, que encontrei essa matéria”.

Segundo Jorge, o projeto de colocação de tubos na cidade é um projeto inacabado que serviria para o escoamento da água, de forma sustentável. “O Prefeito Noco era um visionário e investiu e desenvolveu muito a mobilidade de Ibirubá. Desde os tubos até as calçadas. Pelo que andei pesquisando, a intenção da Administração naquela época era fazer primeiro as tubulações, para esgoto ou água, e depois colocar os PVS, como nas ruas centrais e na própria Flores da Cunha. Dessa forma, não haveria motivo para ter que reabrir toda a rua, em um projeto futuro. Por isso, as estruturas de tijolo em forma de L, para dar destino à água, e a laje de concreto seria o ponto escolhido para que um dia a rua fosse aberta e ali, instalado a boca de lobo”, afirma Ferreira.

Jorge Ferreira com o jornal que traz a matéria sobre os tubos

Arnildo Wohlemberg, de 66 anos, em entrevista ao VR, afirmou se lembrar de quando a Prefeitura de Ibirubá abriu as ruas da cidade em 1979, para colocar os tubos. “Me lembro da frente da casa do pai, na Diniz Dias, a estrada era de terra, quando eles abriram e colocaram os tubos, bem no meio da rua”, afirmou.

“Na minha visão, existem sim túneis, mas não que atravessam a cidade. Talvez tenha de uma casa para outra, dos dois doutores por exemplo. Mas eu lembro que o meu pai me contava, que quando Ibirubá era colônia, tinha muitos saqueadores, ali da região de Cruz Alta, que vinham para cá. Aí ele também contava que o pessoal tinha o costume de construir porões e até umas espécies de bunkers secretos, para se esconder desses saqueadores, que chegavam a ficar dias aqui”, afirma Arnildo.

Arnildo Wohlemberg

 

Prefeito TOCO realizou série de obras em 1979, inclusive de saneamento.

Ibirubá no Fantástico

Desde terça-feira, muitos jornalistas vieram para a cidade cobrir a “escavação dos túneis nazistas”. No entardecer de quinta-feira, a Reportagem do VR se deparou com a equipe de jornalismo do Fantástico, programa da Rede Globo. Comandada pelo repórter Álvaro Pereira Júnior, estava em Ibirubá para produzir uma matéria. Seria veiculada neste domingo.

Colaborador do Jornal VR, Décio R. Rauch Júnior ao lado do jornalista do Fantástico Alvaro Pereira Júnior.