Saúde
O que é a gordura trans e por que a OMS quer acabar com ela
28 maio 2018 | Saúde
Compartilhe:

Ingrediente bastante usado na indústria para melhorar textura e prazo de validade dos alimentos traz grandes prejuízos para a saúde

Com 500 mil mortes nas costas, a gordura trans ganha os holofotes das autoridades em saúde do mundo todo com a campanha lançada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) neste mês. A iniciativa quer que os países adotem medidas para, até 2023, retirar de vez essas substâncias da composição dos produtos industrializados, já que há uma infinidade de artigos científicos apontando a relação entre o consumo de gordura trans e o aumento de doenças cardiovasculares, obesidade e outros males. Numa realidade em que boa parte da comida vem embalada e está disponível a qualquer tempo nas prateleiras dos supermercados, a indústria alimentícia encontrou nesse tipo de gordura uma maneira eficiente de prolongar a vida dos alimentos, ainda que à custa da redução da longevidade de quem consome.

O problema é que não se tem uma medida segura para ingestão, e isso não é de agora. Países como a Dinamarca, já há alguns anos, não permitem o uso desse ingrediente nos produtos comercializados. Em 2015, a Administração de Alimentos e Medicamentos (FDA, sigla em inglês) dos Estados Unidos determinou que a gordura trans fosse banida, até 2018, de todos os produtos vendidos no mercado americano. Isso porque a própria FDA já tinha elementos suficientes para desconfiar de seus malefícios. Com base em artigos científicos, o órgão apontou que comer gordura trans aumenta o nível de colesterol LDL – o “ruim” – no sangue, e essa condição eleva o risco de desenvolver doença cardíaca, a principal causa de morte nos EUA.

O Brasil está atrasado no combate ao consumo dessa substância. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), não há limites estabelecidos para o uso de gordura trans em alimentos industrializados comercializados no Brasil. Desde 2003, entretanto, a presença desse item deve ser informada na tabela nutricional dos alimentos. No início do ano, a agência aprovou iniciativa regulatória para discutir o aumento da restrição ao uso de gordura trans em alimentos industrializados vendidos no país.

Doutora em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Marina Bergoli Scheeren, professora adjunta do curso de Ciência e Inovação em Alimentos da PUCRS, adianta que o Guia Alimentar para População Brasileira (GAPB), lançado em 2005, orienta que o consumo de gordura trans deve corresponder a, no máximo, 1% do valor energético diário – isso equivale a aproximadamente 2g por dia, ou cerca de quatro bolachas recheadas, em uma dieta de 2 mil calorias. Entretanto, de acordo com a legislação brasileira (RDC nº 360) de 2003, fica excluída a declaração de gordura trans em porcentagem de valor diário (%VD) nos rótulos, uma vez que não é recomendada a ingestão de gordura trans, mesmo que em quantidades mínimas.

O guia REPLACE

A OMS sugeriu uma série de ações para tentar retirar a gordura trans de alimentos industrializados até 2023:

  • REvisar fontes alimentares com gordura trans produzidas industrialmente e o panorama para as mudanças políticas necessárias.
  • Promover a substituição de gorduras trans produzidas industrialmente por gorduras e óleos mais saudáveis.
  • Legislar ou promulgar ações regulatórias para eliminar gorduras trans produzidas industrialmente.
  • Avaliar e monitorar o teor de gorduras trans no suprimento de alimentos e mudanças no consumo de gordura trans entre a população.
  • Conscientizar sobre o impacto negativo na saúde das gorduras trans entre formuladores de políticas, produtores, fornecedores e o público.
  • Estimular a conformidade de políticas e regulamentos.

Para que serve a gordura trans

Melhora a consistência, acentua o sabor, deixa os alimentos secos, crocantes e com maior prazo de validade.

Principais alimentos em que é encontrada

  • Bolachas
  • Pipoca de micro-ondas
  • Chocolate
  • Sorvete
  • Salgadinhos
  • E todos os que têm gordura hidrogenada na composição

Importante!

A presença ou não de gordura trans nos alimentos varia de marca para marca. Na dúvida, leia atentamente o rótulo e veja se ela está presente na lista de ingredientes.

Por que ela faz tão mal

Entre seus efeitos mais prejudiciais, estão o aumento do colesterol LDL (que entope as artérias) e a diminuição do colesterol protetor HDL, além de danos e inflamação do revestimento das artérias. Isso tudo aumenta o risco de doenças cardíacas, podendo culminar em infarto ou AVC. Professora dos cursos de Tecnologia em Alimentos e de  Engenharia de Alimentos da Universidade Estadual de Maringá (PR), Suelen Ruiz alerta para outro risco: na gestação, a gordura trans pode ser transportada pela placenta e comprometer o desenvolvimento do bebê.

– Isso pode alterar o comportamento e as respostas emocionais do feto – diz.

Escondida com outros nomes

A gordura trans pode aparecer com nomes diferentes no rótulo, causando certa confusão para o consumidor. Os termos que podem ser encontrados na lista de ingredientes e que indicam a presença de gordura trans são:

  • Gordura vegetal parcialmente hidrogenada
  • Gordura parcialmente hidrogenada
  • Gordura vegetal hidrogenada
  • Gordura parcialmente interesterificada
  • Óleo vegetal parcialmente hidrogenado
  • Óleo vegetal hidrogenado
  • Óleo hidrogenado 

Bruna Porciúncula/GZH – Atualizada em 25/05/2018 – 14h40min

Veja a publicação original em https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/vida/noticia/2018/05/o-que-e-a-gordura-trans-e-por-que-a-oms-quer-acabar-com-ela-cjhm7oj7k085501pa9k10oyn1.html