Situação na Europa: isolamento é o principal antídoto
21 março 2020 |
Compartilhe:

As medidas de isolamento indicadas pelos órgãos de saúde começaram a ser colocadas em prática na última semana no Brasil: suspensão de aulas, eventos e home office. Muita gente tem se referido a isso como “quarentena”. O estágio em que esta medida está em vigor, como na Itália e na China e, mais recentemente, na França e na Espanha, onde indústrias e o comércio foram fechados e as pessoas foram proibidas de sair às ruas, não alcança ainda todo o país. Os maiores epicentros do vírus no Brasil procuraram decretar ações mais drásticas.

Uma quarentena é normalmente adotada em áreas onde há uma transmissão comunitária, quando não é possível identificar a origem da infecção. Diante do grande número de casos, a ideia da medida é evitar não apenas que haja ainda mais infecções, mas que o vírus se espalhe para outras regiões. Foi como ocorreu na Itália, onde começou a haver a transmissão comunitária no norte do país e foi instaurada uma quarentena ali para que não houvesse disseminação para outros territórios italianos, mas isso se mostrou improdutivo, porque já estava ocorrendo a transmissão.

Quase 210 mil pessoas já foram infectadas pelo novo coronavírus no mundo, e, na quarta-feira (18/03), a Europa superou a Ásia em número de mortos pela pandemia. A Itália superou a China como foco da preocupação mundial.  Autoridades da França, Espanha e Itália só permitem aos cidadãos sair de casa para comprar comida ou medicamentos, ir ao médico ou trabalhar. Qualquer tentativa de burlar o confinamento pode ser punida com multa. Enquanto a Europa vive o momento mais difícil da pandemia, na China o pior parece ter ficado para trás e a vida retoma a normalidade aos poucos.

A reportagem do JI entrou em contato com pessoas que estão na Europa, a fim de repassar a situação:

Katiana Campeol – Portugal

Em intercâmbio no curso Ciências da Comunicação/Jornalismo na Universidade da Beira Interior, em Covilhã, Portugal.

“Moro na região norte de Portugal, cidade de Covilhã. Aqui teve o primeiro caso registrado nessa semana. A região norte é onde tem mais casos em geral, a segunda, é a região de Lisboa. Como nas menores regiões não tem hospitais preparados para recebimento dos casos, todos os casos de coronavírus vão para Porto e Lisboa. As universidades de Porto, quando tudo começou, indicaram para os estudantes de intercâmbio que voltassem para seu país de origem. Hoje, isso não pode mais acontecer porque não tem mais voos para o Brasil ou qualquer região para fora da Europa. Portugal foi um dos últimos países da Europa a confirmar os casos de coronavírus. Desde o início de fevereiro, os moradores daqui, principalmente os universitários, já estavam recebendo avisos para que se fossem para suas cidades de origem, que não voltassem para região, não fossem as aulas, pelo risco de contaminação. Foi na última semana que eles realmente decretaram a suspenção das aulas, e quando foi decretado a suspensão, também fecharam muitos lugares, como restaurantes, festas, shoppings e lugares públicos passaram a ser controlados. Provavelmente, em pouco tempo, somente os grandes mercados vão estar funcionando porque eles conseguem abastecer sem utilizar as fronteiras terrestres que foram fechadas. As pessoas aqui respeitam bastante as recomendações do governo. As pessoas que participam de aglomerações são multadas. As ruas estão praticamente vazias, as pessoas não saem. Declarado estado de emergência pelo governo, o mesmo envia mensagens para as pessoas com informações gerais sobre os cuidados para não pegar os vírus. A universidade está sempre avisando as medidas que serão tomadas e atenta aos alunos para que sentindo qualquer sintoma, comunique, para que possa ser atendido o mais rápido possível.”

 

Liege Maldaner – França e Alemanha

Cursando o último ano de engenharia microeletrônica na universidade Grenoble INP, na França. Morou 6 meses em Grenoble (FRA), e no momento estagia na John Deere, em Kaiserrslautern, na Alemanha.

“Estou morando na Alemanha faz duas semanas. Desde a última segunda-feira o governo alemão resolveu fechar todas as escolas e universidades. A empresa que estou trabalhando também fechou, estou trabalhando de casa. É uma situação bem complicada, mas o que o governo alemão está fazendo é justamente para retardar o espalhamento do vírus. E o problema não é especificamente a mortalidade, mas sim o fato de que qualquer país que seja, não tem capacidade suficiente nos hospitais para atender toda a população. Mesmo que não tenha muitos casos, está tudo fechado, tem apenas alguns supermercados abertos, justamente para que as pessoas não se aglomerem. Há duas semanas atrás eu estava na França e a situação está bem caótica. Basicamente teve um epicentro no norte da França, num um evento religioso de aproximadamente 2 mil pessoas, algumas com coronavírus, se espalhando rapidamente. Os hospitais estão cheios e o governo decretou que eles estão em guerra: as pessoas tem que ficar isoladas em casa e só saem se elas tiverem um documento assinado com o porquê que estão saindo. Acredito que daqui a duas ou três semanas a Alemanha chegue nessa situação. Se o governo brasileiro decretou que escolas, universidades e empresas devem fechar, fiquem em casa, não se aglomerem, porque o vírus ataca muito fortemente o sistema imunológico, principalmente de pessoas idosas. Eu espero que essa situação caótica não chegue no Brasil, que não se espalhe como se espalhou por aqui. Isso vai depender do que a população vai fazer.”

 

Bianca Bervian – Itália

Moradora de San Mauro Torinese, comuna italiana da região do Piemonte, província de Turim, na Itália.

“O governo decretou aqui o fechamento de tudo, porque precisa desesperadamente controlar que o vírus se espalhe. Somente supermercados e serviços de extrema necessidade. Aqui na região de Piemonte, o vírus mutou e ficou mais agressivo do que o coronavírus da China. E porque o sistema de saúde está entrando em colapso? – e olha que aqui na Itália o sistema de saúde funciona – Por que as pessoas que desenvolvem os sintomas de coronavírus vão parar na reanimação e não está mais tendo lugar, devido ao atendimento à também casos graves de saúde. O sistema não está preparado para atender todo esse número de casos ao mesmo tempo. Não é verdade que morre só pessoas velhas ou debilitadas. Estão morrendo pessoas que a princípio não se tem certeza se tinham problema de saúde antes, que pegaram o vírus. Chegou a um ponto de que os médicos vão ter que escolher à quem dar o oxigênio na reanimação, e isso é muito absurdo nos tempos de hoje, escolher quem vai salvar e quem não. É impressionante a capacidade que o vírus tem de contagiar as pessoas. O único modo de tentar conter isso é isolando as pessoas.”