Tapera
A educação moral em Jean Piaget: alguns pressupostos
12 julho 2021 | Tapera
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Como todas as obras clássicos, este texto de Jean Piaget, exige cuidado e esforço para sua leitura e compreensão, pois a cada nova leitura, em diferentes tempos, altera a lente daquilo que se olha para o texto. Assim, torna-se clássico, pela sua magnitude, amplidão e importância, como nos aponta Ítalo Calvino (2007) “um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer”, a cada releitura é uma descoberta.

Piaget busca por uma teoria da educação moral “da” e “para” a infância. O que o autor pensou nos de 1930 serve para nos perguntarmos quem é a criança e como precisamos proceder com elas. Sobretudo, esse é um exercício instrutivo e genuíno para pensar a infância, um exercício de diálogo e compreensão da educação infantil, nos campos da filosofia, psicologia, pedagogia e biologia. Portanto, cabe-nos a pergunta fundamental: quem é a criança e o ser humano na condição infantil?

Do mesmo modo, Piaget apresenta uma compreensão a partir do domínio psicológico da infância, principalmente, através de seu psiquismo, para pensarmos por que a criança age, como ela age e de que forma ela age.

O núcleo central apresentado pelo autor, está na tensão entre a dupla moralidade infantil. De um lado, está o respeito unilateral. A moralidade que deixa se guiar cegamente e externamente pelo que diz o adulto. É ele que vai fortalecer a coação externa adulta, como forma de proteção. É deste respeito unilateral que brota a moral heterônoma, ou seja, que está subordinada às leis e vontades exteriores. Ela é natural e necessária para esse período da infância, como uma das formas primárias de desenvolvimento da moralidade infantil. Entretanto, o problema está em ser a única forma de trabalho na infância e se prolongar para os anos seguintes da criança. Destaca-se a necessidade de ela realizar a passagem dessa heteronomia para a autonomia, como uma educação moral para o autogoverno e para a independência do ser humano.

Por outro lado, a tensão se coloca na moralidade do grupo, na contestação da autoridade, como busca por uma relação de igualdade. Nesta fase, destaca-se a acentuação de relações de cooperação entre os sujeitos e os pares da mesma idade. Mas isso não significa, de forma alguma, que não será necessária a presença do adulto, como aquele que exerce de forma inquestionável, o papel de mediação na relação entre a criança, o adulto e o mundo.

Este é o quadro moral do domínio psicológico da educação moral da infância, que parte para o domínio pedagógico, através do pensamento piagetiano como forma na atividade pela experiência, assim, “o estudante descobre as obrigações morais por uma experimentação verdadeira, envolvendo toda a sua personalidade” (PIAGET, 1996, p. 22). Este é o elemento ativo do processo formativo da educação moral desde o seu princípio. Assim, se o educando não experienciar e o professor não criar condições para isso, não ocorrerá a experimentação e, por consequência, não haverá aprendizagem.

Este artigo de Piaget apresenta-se como uma dupla crítica à educação tradicional. Primeiramente, reconhecemos que o respeito unilateral é necessário, mas jamais será suficiente para a formação moral da criança, assim como a coação também não será suficiente, pois irá produzir uma servidão voluntária e uma obediência irrestrita nos sujeitos. Assim, guiados pela ideia democrática no sentido moral da educação, reforçamos nosso entendimento de que não se ensina ditando e comandando preceitos. Faz-se necessário criar condições e ambientes pedagógicos adequados para que ela se fortaleça.

Em segundo lugar, a crítica à educação tradicional se dá pela percepção de que não há pedagogia e educação moral sem o uso de uma técnica, de uma metodologia, como exercício, atividade, como forma de fazer, através de uma práxis permanente.

Então, podemos nos perguntar a esta altura de nossas considerações: que educação moral é possível na infância?

Vivenciamos uma banalização dos processos pedagógicos através de métodos ativos contemporâneos. Em nossa compreensão, o ativo precisa pressupor uma paideia, no sentido originário do termo, um ensino no aspecto de sua totalidade, de cooperação e de autogoverno, como um projeto de uma sociedade solidária e cooperativa, que ajuda a balizar outra ideia de educação. Neste sentido, a formação do professor precisa ser eixo fundamental, como o guia, como “o experimentado”, através de um preparo intelectual sólido e uma reflexão permanente de sua prática pedagógica. Ao dedicar-se a tarefa de educar, faz-se necessário sensibilizar-se, afetar-se com o outro, compreender e interessar-se pelo humano, ter coerência entre o que se diz e o que se faz.

Piaget nos apresenta uma reflexão contundente quanto ao papel fundamental que o currículo, os conteúdos e o diálogo com o saber elaborado da tradição são fundamentais no campo da educação e na formação dos sujeitos, em seu papel socializador. A escola é o mundo da pluralidade, do confronto entre os pontos de vista, entre as diferentes atitudes. Consequentemente, o papel do professor é o de centralidade, para entrar em acordo, para conjugar esforços no sentido da solidariedade, da empatia e da compreensão do mundo através, principalmente, de atividades como o jogo e a brincadeira. Nossa tarefa é descortinar um espaço público diferente, daquele espaço público familiar.

(Texto: Luciana Maria Schmidt Rizzi- Diretora do Instituto Estadual de Educação Nossa Senhora Imaculada. Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade de Passo Fundo).