Tapera
Autismo: “É só um detalhe, que juntos vamos aprendendo e superando a cada dia”
12 abril 2021 | Tapera
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No dia 2 de abril foi o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. A data foi definida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2007. O símbolo do autismo é o quebra-cabeça (puzzle) que denota sua diversidade e complexidade. A cor azul representa a maior incidência de casos no sexo masculino (4 a 4,5 meninos para 1 menina). A fita de conscientização trás o quebra-cabeça em cores diferentes, que representam a diversidade de pessoas e famílias que convivem com o transtorno. As cores fortes representam a esperança em relação aos tratamentos e à conscientização da sociedade em geral.

O autismo- nome técnico oficial: Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), é um transtorno de neurodesenvolvimento caracterizado por déficit na comunicação, interação e comportamento. Tão abrangente que se usa o termo “espectro”, pelos vários níveis de comprometimento. Há desde pessoas com condições associadas (comorbidades), como deficiência intelectual e até pessoas que nem sabem que são autistas, pois jamais tiveram diagnóstico, ou seja, o autismo é um espectro que vai desde casos muito leves (como aquela criança que só parece meio excêntrica e antissocial) até casos graves, com pessoas que vão precisar de auxílio durante toda a vida. Mas é importante saber que, assim como não há uma pessoa igual à outra, não há um autista igual ao outro, cada um tem suas singularidades, potencialidades e suas áreas a desenvolver.

Para auxiliar nas potencialidades e estimulação devemos ter atenção para o diagnóstico precoce e intervenções ideais ou as mais próximas do ideal (com embasamento científico) para melhor evolução de habilidades. Infelizmente, a maioria dos pediatras ainda não estão preparados para identificar sinais de TEA. É comum ouvir de mães que, ao relatarem suas preocupações ao pediatra, ouviram que “tudo tem o seu tempo”, que “o bebê vai falar no tempo dele” e que “não se deve comparar uma criança com a outra”, o que por sua vez não deixa de ser verdade, “mas sabemos que existe um marco de desenvolvimento e quando a criança, neurologicamente falando, não atinge esses marcos (ou não comece a demonstrar essas habilidades) no tempo correto, devemos sim, ficar atentos e procurar auxílio nos profissionais que a nossa comunidade possui, e assim fazer os encaminhamentos devidos”. É importante ressaltar que não há um exame específico que possa diagnosticar o autismo, o diagnóstico é essencialmente clínico, mas existem algumas escalas padronizadas para este rastreio, que podem ser feitas por diferentes profissionais capacitados para isso.

O tratamento para autismo é personalizado e transdisciplinar, onde todos os profissionais envolvidos no desenvolvimento do aluno/paciente pensam juntos focando nas suas características e necessidades. Neste ano ano, a APAE vem priorizando a seus profissionais aperfeiçoamento sobre o TEA, trazendo melhores resultados e ganhos para todos os envolvidos (escola, família, paciente e equipe).

A inclusão escolar ainda tem muitos percalços no que envolvem o TEA, acredito que a maior barreira ainda seja a falta de formação dos profissionais para atuar com as singularidades que o sujeito dentro do espectro apresenta.  Na escola, as vezes faz-se necessário um monitor (não caracterizado bem pelas legislações vigentes) para auxiliar no processo de inclusão. Assim como o direito ao Atendimento Educacional Especializado (AEE), com profissionais com formação para atuar nas Salas de Recursos. Porém, não são todas as crianças e adolescentes com autismo que frequentam as salas de aula regulares, cada caso deve ser analisado individualmente pela equipe pedagógica e de saúde que acompanha a criança ou o adolescente. Algumas crianças e adolescentes com autismo, geralmente, com outras deficiências associadas, se adaptam melhor a escolas especiais, “que é o caso de nossa escola de Educação Especial Etelvina Henrich que também possui alunos com TEA, mas que não deixa de lutar pela inclusão em diferentes espaços”.

É importante ressaltar que as pessoas com TEA têm os mesmos direitos garantidos a todos os cidadãos do país pela Constituição Federal de 1988 e outras importantes leis nacionais específicas, e que quando eles não são garantidos deve ser acionado as instituições e órgãos de defesa dos direitos para adotar as medidas necessárias.

“Parece clichê ficar apontando várias falas já trazidas por diferentes profissionais, seja na área da educação ou saúde, mas ainda é necessária muita mobilização em torno das questões do TEA, a sociedade tem ficado mais atenta e informada sobre o autismo, as campanhas de conscientização são importantes para que cada vez mais pessoas sejam informadas sobre o transtorno e desmistifiquem preconceitos. Autistas leves e moderados muitas vezes passam desapercebidos num primeiro contato, portanto é importante que as informações sejam difundidas de forma cada vez mais ampla, para que os direitos dos autistas sejam efetivados na prática e façamos uma sociedade melhor, que saiba respeitar as diferenças de cada sujeito, não só pelos autistas e seus familiares, mas por nós mesmo”.

Alguns sinais do TEA:

  • Padrões incomuns de fala;
  • Baixo contato visual;
  • Não responder quando chamado pelo nome;
  • Desenvolvimento tardio das habilidades de fala;
  • Dificuldade em manter uma conversa;
  • Repetição de frases ou palavras;
  • Dificuldade em compreender os sentimentos dos outros e expressar os seus;
  • Comportamentos repetitivos ou incomuns.

Mãe de jovem autista fala sobre a trajetória e o cotidiano do filho

Rafael Lemes de Oliveira, 15 anos, é filho de Cleusa Lemes e João Júnior Costa de Oliveira. Segundo Cleusa, desde pequeno o Rafael sempre foi muito afetivo e carinhoso. O jovem é portador do Autismo infantil CID F10 84, que afeta a fala e o aprendizado. Rafael adora jogar vídeo game, é apaixonado por lego do tipo trator, avião, empilhadeira, entre outros. Ele também gosta muito de fazer passeios no interior e nadar.

A família percebeu o autismo no Rafael aos dois anos de idade, pois ele ainda não falava e sentia medo de tudo faz barulho, por exemplo secador de cabelo, aspirador de pó, liquidificador, etc. Também brincava de um jeito diferente das outras crianças, separando todos os brinquedos por cor e tamanho e enfileirando-os. Aos dois anos e meio, os pais de Rafael levaram ele ao médico neurologista, que depois de algumas consultas, o diagnosticou com o autismo infantil CID F10 84. Sobre o comportamento do Rafael, Cleusa conta “as principais características do autismo do Rafa são o atraso na fala, comunicar-se e expressar-se de um modo diferente e também tiveram alguns atrasos no desenvolvimento na aprendizagem na escola. Mas, ele age de maneira normal mesmo em meio ao público”. Na escola, as professoras enviam as atividades de forma diferenciada, para que Rafael possa entender e realizar as atividades. “O dia a dia é normal, ele se veste sozinho toma banho sozinho, se tem fome ou sede ele pede e escolhe o cardápio do almoço. Rafael frequenta a APAE uma vez por semana, onde ele recebe auxílio de uma psicóloga, fonoaudióloga e fisioterapeuta. Ele também frequenta a escola regular”, completou Cleusa.

“Ser mãe de autista não é fácil, mas receber todo amor e carinho dele faz tudo valer a pena. Autismo não se passa e nem se pega, como algumas pessoas acham. É um diferencial da pessoa e nenhum um autista é igual ao outro, mas todos são especiais. O Rafinha, como é carinhosamente conhecido, é tudo em minha vida. Amo ele mais do que tudo. O autismo é só um detalhe, que juntos vamos aprendendo e superando a cada dia”, concluiu.