Educadora Especial destaca sobre o Sistema de Braille
10 abril 2021 |
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Cleusa Guedes é graduada em Educação Especial em Audiocomunicação, Pós Graduada em Psicopedagogia, Especialização em Neuropsicopedagogia Clínica e Institucional, Psicomotricidade e em Educação Especial. Exerce sua profissão como professora responsável pela Sala de Recursos do Instituto Estadual de Educação Nossa Senhora Imaculada e atua como Psicopedagoga Clínica.

No dia 08 de abril é comemorado “Dia Nacional do Sistema Braille” no Brasil. Esta data tem o objetivo de conscientizar a população sobre a importância das políticas públicas para inclusão das pessoas cegas no sistema educacional do Brasil. Também visa a reflexão sobre a empregabilidade de mecanismos que favoreçam o desenvolvimento intelectual, profissional e social das pessoas cegas ou com pouca visão.

O Dia Nacional do Sistema Braille foi criado em homenagem ao nascimento de José Álvares de Azevedo, o primeiro professor cego do Brasil.

Mas o que é o Braille? O sistema Braille é um processo de escrita e leitura baseado em 64 símbolos em relevo, resultantes da combinação de até seis pontos dispostos em duas colunas de três pontos cada. Pode-se fazer a representação tanto de letras, como algarismos e sinais de pontuação. O sistema braille foi criado na França, em 1825, pelo francês Louis Braille, que perdeu a sua visão quando tinha apenas 3 anos de idade.

Cleusa Guedes atua há 21 anos em Sala de Recursos e segundo ela, “eu atendi alunos que aprenderam facilmente o sistema braille, outros não conseguiram assimilar o processo, alguns conseguiram aprender a digitar na máquina e decoraram facilmente todos os símbolos mas não conseguiram ler. Esta diversidade representa a inclusão, cada sujeito com sua particularidade que nós professores precisamos respeitar e buscar recursos que venham a contribuir no desenvolvimento escolar de cada aluno que recebemos na escola. Todos os professores que tem alunos incluídos estão sendo desafiados a cada aula, especialmente no sentido de como apresentar conteúdos que possam ser acessíveis. Por isso quero ressaltar a importância do trabalho interdisciplinar na escola, todos os setores envolvidos, senão não haverá uma efetiva inclusão”, destacou a professora Cleusa.

É difícil? Segundo Cleusa, com certeza é difícil e desafiador. “Mas nosso aluno está na escola e com apoio dos pais, que considero primordial para que as ações planejadas sejam aplicadas e efetivadas e deem resultados, vamos seguindo dia após dia tentando superar e aprimorar para qualificar todas as ações propostas”, disse.

O Sistema proporciona ao aluno incluído a autonomia tanto na leitura de livros, descrição de medicamentos entre outros, como na escrita, consequentemente, maior facilidade de comunicação e de socialização. Hoje já se encontra em agências bancárias, nas caixas de remédios, perfumaria entre outros a descrição em braille.

Mas como ocorreu este aprendizado na escola? “Os atendimentos aos alunos na Sala de Recursos eram semanais, uma ou duas vezes por semana. Os alunos tiveram que se alfabetizar neste sistema, mais complexo do que o sistema impresso de escrita, pois necessita desenvolver e aprimorar habilidades específicas, como orientação espacial, o domínio da lateralidade, a coordenação motora fina e a percepção visual. Pois o braille utiliza as mãos para realizar a leitura, ao toque de uma ou duas mãos ao mesmo tempo, especificamente a ponta dos dedos, com eles que a pessoa vai sentir a combinação dos pontos que formam uma letra ou sinal”.

Inicialmente, o material que os professores da sala de aula solicitavam era todo produzido manualmente. Decorrido algum tempo, a escola começou a receber livros em braille auxiliando o aluno a aprimorar sua leitura. Também recebeu a máquina elétrica, esta facilitou na digitação de material.

Com este aprendizado, os alunos tiveram a oportunidade de ler, construir textos, responder as atividades e realizar algumas provas transcritas neste sistema, se deslocarem sozinhos nos locais da cidade que oferecem placas em braille. Para auxiliar o aluno além dos atendimentos na Sala de Recursos, quando necessário o aluno tinha auxilio de monitora em sala de aula, que era conhecedora do sistema e dava o suporte necessário para que o aluno no desenvolvimento das aulas.

Com esse trabalho estava sendo aplicado uma das atribuições do professor do atendimento educacional especializado, ou seja, desenvolver atividades de acordo com as necessidades educacionais especificas dos alunos, sendo que o ensino do braille, uso do soroban e das técnicas para orientação e mobilidade para alunos cegos.

Hoje os alunos cegos ou com baixa visão já estão em outra etapa de seu aprendizado, cursando ou já concluindo uma Graduação. “O que é gratificante como profissional é saber que o aprendizado que o aluno recebeu na Sala de Recursos e na escola como espaço de inclusão ele levou para sua caminhada e que a utiliza para sua qualificação profissional.

“Destaco que a proposta de trabalho elaborada na Sala de Recursos para alunos cegos ou com baixa visão foi mostrar outra oportunidade de comunicação e que auxiliaria na inclusão escolar e social. Pois o aprendizado do sistema braille exige uma formação mais intensiva. Mas tenho a certeza de que todo trabalho realizado no Instituto Estadual de Educação Nossa Senhora Imaculada, de Tapera, primou pela inclusão e acesso dos alunos público da Sala de Recursos ao conhecimento de recursos acessíveis a eles para que pudessem sair da escola levando na sua bagagem este conhecimento para que no momento oportuno fosse utilizado e aprimorado”, conclui Cleusa.

Jovem músico fala sobre sua trajetória e a importância do Braille em sua vida

Guilherme Vieira, 21 anos, é filho de Neusa Rizzi Vieira e Roziclei Antunes Vieira e é irmão de Patrícia Rizzi Vieira. É formado em Música-Licenciatura, pela UPF (Universidade de Passo Fundo). A deficiência visual de Guilherme é a Baixa Visão. O que ele mais gosta de fazer no dia a dia é tocar violão e guitarra.

Na infância, realizava o que normalmente as crianças fazem: brincava, jogava vídeo game, etc. Quando mais velho, já aos 12 anos, começou a tocar violão, com a ajuda de um amigo. “Com o passar do tempo, o interesse de me aprofundar no assunto me fez entrar em uma graduação em música. Atualmente estou entrando no mercado de trabalho como professor de música”, destacou Guilherme.

Sobre as aulas de Braille, o jovem conta que realizou quando estava no Ensino Médio, na sétima ou oitava série, sob orientação da Professora Cleusa Guedes. “Comecei aprendendo a ler, posteriormente aprendi a escrever o Braille com a ajuda da reglete e da máquina de escrever”, disse Guilherme.  Ainda conforme o Músico, “o Braille nos dá uma certa independência, pois conseguimos através dele escrever textos, partituras musicais, etc. A partir do momento que tive o braille como um alheado facilitou muito os estudos. Ainda na escola, um amigo me apresentou programas de computadores, o que me auxiliou na realização de todas as atividades básicas como ler, escrever, fazer contas matemáticas, mandar e-mail, dentre outros, com muito mais facilidade. Na escola, os colegas e professores sempre auxiliaram Guilherme, para a compreensão dos conteúdos, bem como as demais atividades escolares. Quando terminei os estudos na escola em 2016, fiz o vestibular para estudar Música Licenciatura na UPF, com isso, o braille me auxiliou com relação às partituras musicais, que eram transcritas dessa forma pelo professor Neri Ribeiro”.

Para os estudos, Guilherme tem o auxílio do braille e da tecnologia, e as outras atividades do dia-a-dia são realizadas quase que normalmente.

Guilherme concluiu com uma mensagem: “O braille não é apenas uma forma de escrita, mais sim, uma forma de interação social, pois através dele conseguimos nos expressar tanto com palavras como também musicalmente. Os obstáculos impostos pela vida só servem para nos tornar mais fortes”.