Professora fala sobre uma das obras que será apresentada na Feira do Livro
11 outubro 2021 |
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Atividades de leitura, análise e sessão de filme são algumas das propostas que vem sendo desenvolvidas com alunos do 6° ao 9° ano, da EMEF Francisca Cerutti, nas aulas de Língua Portuguesa. Este é um ensaio literário, para trabalhar o livro Fábulas do Sul, do grupo teatral UEBA, atividade que está sendo realizada em virtude da Feira Municipal do Livro.

A festa da leitura, do livro e da cultura, será de 18 a 29 de outubro. A 30ª Feira Municipal do Livro tem como Tema: Vida e Cultura.

Por isso, o Jornal da Integração convidou para falar sobre o assunto, Francesca Batista de Azevedo, professora de Língua Portuguesa na EMEF Francisca Cerutti, Graduada em Letras e Filosofia pela UFPEL, Mestra em Sociologia pela UFRGS, pesquisadora de Literatura Comparada.

“O livro “Fábulas do Sul: Um Tesouro Perdido no Pampa” lançado em 2019 virou um filme de média-metragem, nesse ano, disponível no Youtube. O espetáculo teatral homônimo, desde 2018, conta com mais de 100 apresentações em mais de 80 municípios, foi fruto de um edital cultural da cidade de Caxias do Sul-RS, já a produção cinematográfica fora contemplada pela Lei Pró-Cultura- RS, realizado durante a Pandemia de COVID-19. Essas iniciativas são bons exemplos, assim como a 30ª Feira do Livro de Tapera, de como o incentivo à produção cultural é essencial para difundir a arte, sensibilizar e estimular novos leitores”.

“Desse universo vem o escritor, diretor e dramaturgo caxiense Jonas Piccoli, um dos convidados para essa edição da feira, junto ao  Grupo de Teatro UEBA- Produtos Notáveis, no qual atua e é fundador com Aline Zilli. As suas diferentes experimentações e linguagens teatrais proporcionam rentáveis reflexões, tais como: Qual é o processo criativo de um escritor que atua em sua própria história, tanto no palco como na produção cinematográfica? Como um teatro autoral através da comicidade provoca reflexão sobre preconceito com um mergulho no folclore gaúcho?  É o que será possível apreciar em Tapera com a vinda do Grupo Ueba. Um deleite para público e chão fértil aos estudos literários, fílmicos e teatrais nacional na contemporaneidade”.

“O enredo de Fábulas do Sul se desenvolve através de três viventes, mascates, que juntos pelo pampa gaúcho, saem em busca de um tesouro enterrado desde os tempos dos jesuítas. Ouro e prata guardados em casa construída sem portas, nem janelas, a casa de MBororé, onde um espírito protetor de um Guarani faz vigília. Se tomada como metáfora, tal casa representa várias possibilidades de se aventurar na leitura, com acesso sem trancas ao imaginário gaúcho, em algum lugar no tempo guardando preciosas histórias. Na abertura do livro, funcionando como uma chave de leitura, encontra-se uma citação de Jayme Caetano Braun, poeta, trovador e músico regionalista, convidando o leitor a uma aventura: “Por mais longe que um homem vá, jamais fugirá de si.””

“Dentre muitas intertextualidades, que é o diálogo permanente entre diferentes textos e artes, está presente nesse livro a referência à obra de João Simões Lopes Neto, reconhecido como um grande e fundamental escritor regionalista do Brasil. É através dos diálogos que se apresentam causos e lendas com humor e muito dialeto, reveladores de tradições populares e folclore. Com ricos rodapés o texto didaticamente apresenta o sentido de expressões típicas, usos e costumes do universo gaúcho”.

“O espaço narrado reserva vários pontos em comum entre o livro e o filme. Os personagens Joca, Charque, Aparício e o cavalo Century se abrigam num casarão abandonado na maior parte do tempo. Essa parada antecede a saída pela busca do tesouro. As filmagens externas, no filme, abrem e fecham a narrativa, assim como na obra escrita, ambientam a paisagem do Sul.  Outros espaços são narrados quando os contadores de causos abrem uma história dentro da outra, assim como no livro há pequenos filmes dentro do filme. E por isso, na criação para a tela, o espectador pode desfrutar também de animação e stop motion, com bonecos e outros materiais. Em alguns momentos palavras sobrescritas sobre as cenas da tela aparecem e reafirmam que a palavra escrita está dividindo o mesmo palco do teatro e da imagem cinematográfica”.

“A câmera parada, o enquadramento de meio corpo e corpo inteiro na cena, num espaço restrito, dentro de uma casa abandonada de tábua, dá ao espectador do filme aquela sensação de que a tela é o palco, em que os personagens se movem. Curiosamente em uma cena do filme o personagem Joca, que reserva uma revelação surpreendente no desfecho da história, se volta diretamente ao espectador e teatralmente conta sobre o momento de apuros em que encontrou os companheiros de aventura, ele diz: “Se me permite uma parte desse momento de ingratidão…”. Esses múltiplos procedimentos de representação de diferentes artes, na tela, fazem o leitor ressignificar tanto o teatro quanto a obra literária. O espectador, por sua vez, ganha a possibilidade de apreciar e compreender a narrativa de um modo diverso”.

“Outro ponto de encontro entre o livro e o filme, ou seja, da palavra com a imagem, é o modo como são introduzidos os personagens no enredo: fugindo pelo campo, correndo. No cinema, tal cena revela a paisagem sulista, tranquila, sendo rompida pelos homens e o cavalo Century correndo de um grupo de perseguidores pelo vasto horizonte verde do pampa”.

“Não é difícil reconhecer as semelhanças entre Fábulas do Sul, espetáculo teatral, o filme e o livro. Seria o texto literário composto por um autor cujo estilo de escrita tem como suporte o teatro? Ou o filme é guiado por um roteiro que toma por base a literatura? O Campo dos Estudos Literários denominado Comparativismo, surgido no século XIX, na França, estuda a relação da literatura com outras artes e áreas de conhecimento, levantando tais questões. Assim o estatuto da narrativa e da consequente condição dos personagens nessa movimentação entre espaços textuais, possibilita discussão sobre as relações entre as linguagens literária e fílmica, restritas ou não ao tema das “adaptações”da literatura ao cinema (CUNHA, 2017)”.

“Portanto, as produções artísticas do Grupo Ueba mostram uma mesma narrativa em três diferentes campos: na literatura, no cinema e no teatro, tendo cada qual um modo de afetar seu público, uma linguagem própria e sem, contudo, nenhuma das três se anular. Conexões que fertilizam o imaginário do público, dividindo possibilidades e desafios para representar e refletir a vida com humor e criatividade, seja no espaço do palco, da tela ou da folha de papel”.

“Viva a Feira do Livro! Vida Longa à Cidade Cultura! Dá-lhe lenda”!