28 de junho: Orgulho LGBTQIA+, pandemia e política de morte
28 junho 2021 |
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Hoje,  é o dia mais simbólico para a comunidade LGBTQIA+: o dia 28 de junho é celebrado como o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+. Escolhida em função da revolta ocorrida em 1969 no bar Stonewall Inn, em Nova York, contra a violência impetrada pela polícia sobre a população da comunidade presente, a data lembra como a diversidade, longe de ser algo pejorativo ou difuso, representa o direito à existência de milhares de pessoas.

Frequentemente, o Brasil é citado pela imprensa internacional como o país que mais mata LGBTs no mundo. De acordo com dados de uma pesquisa da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), nos primeiros quatro meses de 2020, houve um aumento de 48% no número de pessoas trans assassinadas, em comparação com o mesmo período de 2019. Chama atenção também o fato de que, de 2018 para 2019, o Brasil saiu da 55ª posição para a 68ª no ranking de países seguros para a população LGBT. O que se verifica, assim, é um retrocesso no exercício da cidadania.

O presente governo brasileiro tem responsabilidade direta nisso, uma vez que não apresenta políticas específicas para a população LGBT, ao contrário disso: trata-a com uma postura degradante, vexatória e baseada em um moralismo que, de acordo com preceitos religiosos e discriminatórios, joga LGBTs para um espaço de marginalização. O próprio presidente Jair Bolsonaro é um símbolo da falta de respeito quando afirma que, na pandemia de coronavírus, “usar máscara é coisa de ‘viado’”, ou ainda, que “ter filho gay é falta de porrada”. Não há constrangimento algum ao utilizar algum argumento de fundo religioso para justificar o preconceito como “liberdade de opinião”.

Ao mesmo tempo, com a pandemia de covid-19, a população LGBTQIA+ sofreu duros golpes em termos empregatícios e de saúde mental. Muitas pessoas, devido à necessidade de distanciamento social, precisaram se afastar dos grupos de apoio com quem contavam, a exemplo das que englobam pessoas acometidas pelo HIV e por abandono familiar. Esses fatores foram elencados por uma pesquisa efetuada pelo coletivo Vote LGBT divulgada em junho de 2020, que destacou os três maiores impactos para essa população em meio ao processo pandêmico: piora na saúde mental – em que se enquadram aspectos como o convívio familiar conturbado, solidão e necessidade de novas regras de convivência -, afastamento das redes de apoio e falta de fonte de renda.

Ser LGBT é, constantemente, ter de enfrentar conceitos moralistas que nos colocam num patamar abaixo na escala moral da sociedade. Devido a isso, somos vistos como “promíscuos”, “indecentes” e “depravados”, como se merecêssemos uma subjugação por uma suposta “destruição de famílias” que fazemos. Ora, se o que pregamos é a direito de expressão a fatores tão fluidos como a sexualidade e o afeto humanos, é de má-fé ressaltar que exista uma desmoralização. As únicas coisas que pretendemos destruir, e isso sem ponto algum de dúvida, é o preconceito, o ódio que é impetrado a nós e a humilhação que, devido ao padrão de moralidade, nos coloca em uma posição marginalizada na escala social.

Discriminação está longe de ser liberdade de expressão, assim como a população LGBT está muito distante de ser planificada como um antro de sensualidade, e apenas isso. Não, não é defensável, em hipótese nenhuma, que se garanta o direito à manifestação de discurso LGBTfóbico vestido como “opinião”, com o chavão de que, mesmo que seja discriminatório, o indivíduo tenha o direito de propagá-lo. Não se pode tolerar ou permitir que tais impropérios circulem livremente ou com tolerância. E antes que se diga que alguém “não concorda” ou que “não é obrigado a aceitar LGBTs”, convido que pegue uma sacola, preencha-a com seu moralismo e a aplique para si próprio, primeiramente. Ou, melhor: jogue-a na lata do lixo, pois a única pessoa a precisar aceitar algo como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, é a que foi pedida em casamento.

Somos um dos países mais inseguros para a população LGBTQIA+ e o que mais mata pessoas trans. Tivemos conquistas – poucas, mas de grande avanço: a criminalização da LGBTfobia, em 2019, o reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo, em 2011, a instalação de ambulatórios específicos para pessoas trans em diversas capitais brasileiras, dentre outras.

Urge, no entanto, que haja uma política pública estruturada e voltada à promoção da diversidade, seja nos ambientes trabalhistas, educacionais ou institucionais. E não há como mencionar o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ sem pedir pela saída do governo que preconiza a violência psicológica, física e moral contra LGBTs, que aumenta a nossa marginalização. É fundamental que um governo como o de Bolsonaro, que advoga por uma política de morte e de exclusão, abandone o posto que ocupa de uma forma tão escatológica, tóxica e vergonhosa. É essencial que Bolsonaro e seu circo dos horrores da prepotência, moralidade e religiosidade saiam do poder que nunca deveriam ter ocupado. É peça-chave que se grite “Fora, Bolsonaro!”.