Em tempos de excesso e falta, o espaço para a palavra e para o encontro
13 maio 2017 |
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Muito se comenta na atualidade que estamos vivendo em tempos de excesso e também de faltas. Excessos de tecnologia, de trabalho, de demandas vindas da sociedade e da cultura, de gratificações. Faltas de limites, de tempo, de afeto, de paciência. Entre tantas outras coisas que poderiam ser citadas, a psicanálise propõe uma reflexão sobre as várias maneiras com que os psiquismos reagem ao que lhes é demandado.

O campo analítico se constitui baseado em um arcabouço teórico que envolve o conhecimento técnico/teórico e um conhecimento sensível. Para isto, baseia-se em um tripé fundamental para sua constituição, que é o conjunto de teorias, métodos e técnicas necessárias para o acesso ao inconsciente e aos mecanismos utilizados pelo aparelho psíquico. Em outras palavras, a análise pessoal do próprio analista, para cuidar do seu instrumento de trabalho (que é o próprio inconsciente e sua psique emprestados ao espaço da sessão), o espaço de supervisão, para um debruçar-se sobre o caso enquanto uma ficção, uma versão de uma verdade histórica que envolve o sofrimento de uma vida inteira do analisante, e o corpo teórico que permite a assimilação da técnica e da fundamentação teórica. A psicanálise pretende abrir espaço para a simbolização do sofrimento do sujeito, sem enquadrá-lo em critérios de diagnóstico, mas fortalecendo e ampliando os recursos de cada pessoa para melhor viver e explorar o máximo de suas potencialidades, encerrando os ciclos de repetição que são maléficos para o analisante.

Embora estes temas sejam atuais, são comuns à história da humanidade, pois o inconsciente “pega carona” nas demandas do momento e se adapta aos disfarces oferecidos pelo contexto, para fazer-se atual, em conflitos que remontam aos inícios da civilização. Por exemplo, quando as mulheres começaram a sair de casa para trabalhar, modificando o estereótipo da família nuclear e patriarcal, surgiram frases para acalmar a culpa destas mães de família, com “não importa a quantidade de tempo que se passa com os filhos, o que importa é a qualidade”. Isto funcionou por algum tempo e teve sua importância, para que a mulher pudesse assegurar a si mesma a legitimação de seus desejos de produção, de crescimento. Os homens, pais de família, sobrecarregados com múltiplas responsabilidades, também encontraram alento nestes dizeres, pois a demanda sempre crescente produziu um afastamento cada vez maior entre pais e filhos, com muita culpa e conflitos. No entanto, hoje percebe-se que existe um mínimo de tempo que é necessário para ser constituinte, para que se instale um ritmo e uma constância no psiquismo inicial do bebê, da criança, do adolescente. Esta falta de tempo para o encontro, para o cuidar-se mútuo, está produzindo efeitos em todas as camadas de gerações, com uma preocupação especial sobre os pré-púberes e adolescentes, como tantas notícias nos alertam, pois, para se constituir, um psiquismo precisa que o cuidador se faça presente com certa regularidade, frequência e contiguidade.

Diante de tantas particularidades o analista se mantém com sua sensibilidade aberta para, baseado em seu corpo teórico, escutar e dar lugar à fala e à dor que os excessos e faltas provocam em cada pessoa. A solidão que predomina nos tempos atuais é a tradução da impossibilidade de um encontro com o emocional do outro, quando não se pode compartilhar do que se sente, encontrando espaço nas formas sintomáticas de ataques ao corpo, como adoecimentos graves, automutilações, retraimento, ataques mais graves à própria vida. Esta miríade de elementos é levada em conta quando, após o período de avaliação, o analista determina a prescrição do espaço de escuta.

Toda pessoa que procura análise traz consigo um pedido de transformação, embora nem sempre consciente do jogo de forças que habita e opera dentro de si. O pedido de socorro do analisante precisa ser avaliado com ética e cautela, para que o espaço possa contemplar as forças a favor da recuperação. Tem-se um cuidado em oferecer ao sujeito em sofrimento um tempo-espaço capaz de conter as angústias e produzir a transformação necessária para o reestabelecimento de um bem-viver. A possibilidade de produzir um novo sentido para a própria história traz esperança. A liberação dos afetos/sentimentos que ficam isolados, deslocados, entre outros destinos, amplia a elasticidade que o aparelho psíquico necessita para enfrentar todas as dificuldades que a vida em sociedade nos impõe. Sentir-se amado e poder amar é o que nos faz sentir humanos, plenos, com um lugar no mundo e na família, nos grupos em que estamos inseridos. Quando a palavra não pode ser dita, encontra caminhos para escoar no corpo, traduzindo no simbolismo da manifestação física a dor indizível. Quando a palavra ganha voz, abre caminho para a transformação.

Carolina C. S. Pasinato

Psicóloga, psicanalista, membro associado da Sigmund Freud Associação Psicanalítica. Especialista em gestão de Recursos Humanos e Avaliação Psicológica. Atende crianças, adolescentes e adultos. Rua Mauá, 1377, sala 301, Ibirubá. Fone: (54) 9-8119-3695