Agricultores da região sofrem com a estiagem: um cenário desolador agravado a cada dia
14 janeiro 2022 |
Compartilhe:

O produtor rural, em seu lavor diário, enfrenta inúmeros desafios para alcançar as produtividades admissíveis de se obter ganho para quitar os amplos investimentos de seus meios de produção agropecuários. Aliás, não é fácil como pode parecer, e pode ser ainda pior quando as intempéries climáticas nos assolam trazendo as incertezas do que poderá acarretar.

Em nossa região, podemos acompanhar as inúmeras perdas, a começar pelas lavouras de milho para grãos ou silagem, com comprometimento de 90% da produção. A cultura da soja também vem a cada dia mostrando seus danos irreversíveis e ainda incalculáveis. Na região do Alto Jacuí, os agricultores vêm sofrendo diariamente com a estiagem. A equipe integrada do Visão Regional e do Jornal da Integração conversou com produtores de quatro cidades da região, para saber a realidade que eles enfrentam:

Em Tapera, família Durigon sofre com a estiagem

Thiago Durigon, é produtor rural e gestor na agropecuária Velho Umbu, juntamente com sua família.

O jovem acadêmico de Agronomia conta que, assim como ele, muitos produtores rurais sofrem com a seca:

“Assim, compartilho minha consternação com os demais produtores que também estão sofrendo neste ano atípico”, disse.

A família dele, assim como muitas famílias de agricultores, tem sua renda cem por cento oriunda do agronegócio, com a produção de cereais de inverno/verão e produção de pecuária de corte de sistema extensivo. As produções olerícola e frutífera de subsistência, fora de sistemas de irrigação, também estão 95% comprometidas.

“Ainda que a nossa propriedade conte com um plano de gerenciamento bastante cautelar, nunca é esperada uma frustração tão considerável como e sta, conquanto mais em um ano em que os custos de produção mais que dobraram de valor e que com a falta de seguros agrícolas trará prejuízos ainda incalculáveis, pois aumentam a cada dia que passa”, ressalta o agricultor. Segundo Thiago, a perda foi de cem por cento da plantação de milho sequeiro, e até então, a lavoura implantada de soja ultrapassa a estimativa de 70% de perdas na produção.

“Até então, ninguém sabe o que acontecerá a curto, médio e longo prazo. Entretanto, a todos nós, produtores, nos resta ter cautela, monitorar as lavouras e realizar decisões com os pés no chão, na esperança de que o cenário irá mudar e amenizar toda essa angústia, e que as organizações governamentais tomem medidas imediatas para auxiliar nossas famílias do agro, a fim de fomentar ainda mais a permanência destas no meio rural e a produção de alimentos para suprir a demanda crescente”, diz o agricultor.

Devido à boa safra nos anos anteriores, a família decidiu investir em equipamentos e em melhoria na propriedade, e necessita de bons resultados nesta atual safra para que esses investimentos sejam abrandados, como explica Thiago:

“Assim, como viemos da safra 2020/2021, considerada boa, foram alavancados inúmeros investimentos em equipamentos e outros para a maioria das propriedades, aquisições, estas, que dependem diretamente de boas produções para que sejam amortizados”, concluiu.

Em LTC, Edio Schumann e família esperam uma virada no clima para poder ter uma boa colheita

Agricultor desde criança, sempre trabalhou cultivando a terra para o próprio sustento. Ele é casado e tem um casal de filhos. Sua propriedade fica situada em Linha Colorado, interior de Lagoa dos Três Cantos.

Ele trabalha com seus pais e possuem várias atividades, como cultivo de grãos, apicultura, e também, prestam serviço de silagem.

Sobre a estiagem, Edio destacou que estão preocupados com o rendimento das lavouras:

“As lavouras ainda não foram colhidas, mas podemos ver que as perdas serão, visivelmente, muito grandes no milho. Na soja, houve replantio, atraso no plantio e pouco desenvolvimento da cultura”, disse.

Ainda segundo o agricultor, “o perito veio avaliar o nosso milho e disse que deve ser avaliado novamente antes da colheita. Porém, apenas após isso os números de perdas poderão ser exatas. Estimamos uma perda de 80%”.

Conforme Edio, está sendo solicitada ajuda do governo. “Temos pouco o que fazer além de esperar a chuva, e estamos nos mantendo de cabeça erguida e temos esperança em dias melhores. Que venham chuvas regulares para amenizar as perdas, principalmente da cultura da soja. Devemos seguir em frente porque com muito trabalho podemos passar por cima disso. Estiagem e excesso de chuva fazem parte da vida de agricultor. Não é uma profissão fácil, mas é importante para o alimento do país. É um trabalho amado por nós, foi passado por gerações, e mesmo assim, tem um espaço importante na economia e em nossos corações”, concluiu Edio.

Claudiomiro Vergutz, vice-prefeito de Selbach e produtor rural, já teve perdas em suas culturas de verão

Claudiomiro Vergutz, vice-prefeito do município de Selbach, reside com sua família na comunidade de Bela Vista, interior do município, os quais trabalham com a produção de leite e de grãos.

Conforme o agricultor, a expectativa era de uma boa safra, isso antes de a estiagem assolar o município:

“Antes da seca, esperava-se fazer uma boa safra de soja e milho, e hoje, temos uma perda irreversível de milho, além de uma baixa expectativa na colheita da soja, em que a estiagem já atingiu grande parte da produção”, ressalta.

Houve também perda nas pastagens, ocasionando a baixa produção de leite: “Uma vez que muitos produtores têm apenas a renda do leite como sustento, e este, muitas vezes, já foi desvalorizado. A estiagem traz prejuízos para a bacia leiteira na região. Acredito também que as perdas na soja precoce já chegam a 80%, e deste que foi plantado agora se espera uma produção de 30 a 40 sacas, se as chuvas normalizarem”, complementa.

Para suprir os prejuízos, Claudiomiro diz que se espera que o governo homologue o decreto de emergência, para que se consiga uma renegociação das dívidas e que o clima colabore, trazendo dias de chuvas: “A única esperança pra suprir os prejuízos é que tenhamos um bom êxito com os seguros e Proagros, e o nosso dia a dia, com essa situação, nos deixa triste, angustiados, e na espera de uma boa chuva, pois não é fácil ver toda a dedicação do trabalho não ter resultados positivos. Esperamos que a chuva normalize para que ainda seja possível reverter algumas situações”.

Claudiomiro finalizou a entrevista com uma mensagem: “A mensagem que deixamos é que o agricultor nunca desanime com a situação que estamos passando. Esta não foi a primeira e também não será a última estiagem. Sabemos que os agricultores são fortes por natureza, mas ver suas plantações secando já não [lhes dá mais] um sorriso no rosto. Devemos ter força e fé para superar essa dificuldade, pois acima de tudo, Deus sempre estará olhando por nós”, concluiu.

Em Ibirubá, para o agricultor João Leopoldo Schlintwein, essa estiagem se arrasta desde o final do inverno

Agricultor na localidade de Boa Vista, interior de Ibirubá, João Leopoldo Schlintwein e família também estão temerosos com as consequências que, segundo João, é uma das maiores já presenciadas:

“Sobre esta estiagem, ela vem se arrastando desde o inverno. Então, desde que lido em lavouras, com minha idade, estou ‘achando’ uma das maiores estiagens até o momento. Venho realizando o plantio desde outubro, quando tentamos, a cada precipitação de chuva, sendo expressiva ou não, aproveitar o máximo para a semeadura, e hoje em dia, as sementes já plantadas em outubro que estão em florescimento e vagens têm potencial super baixo. Até o momento, contam-se de cinco a vinte vagens por pé. As novas que foram plantadas no decorrer dos meses, conforme as chuvas, estão morrendo por estrangulamento, em que o sol queima seu pé rente à terra, e acaba morrendo a planta nova”, diz o agricultor.

Sobre perdas, elas podem ser enormes, como nos diz João:

“Em relação a prejuízos, para nós, são enormes, digo isso pois, em algumas áreas de nossa propriedade, tivemos que fazer os replantes, e não basta os venenos que temos que manejar para tentar manter o sobrou. Tudo isso vai se somando, e acredito que a conta final será alta. Acrescento, ainda, que ovelhas e gado já sentem as consequências da estiagem: os animais já estão sendo tratados há mais de meses com os tratos guardados do trigo, aveias e fenos, pois não se tem mais pasto. E também é difícil de calcular os prejuízos, pois o ciclo da soja não terminou. Então, em se tratando da soja, uma planta que por sinal é muito forte, nesse momento, ‘acho’ que, [para] as primeiras semeaduras, não se tem mais recuperação, pois já entraram na fase de floração. Mas, se o tempo normalizar, as mais tardias semeadas pode amenizar algumas perdas, mas isso e só a natureza quem pode nos salvar”.

Para o agricultor, ter um psicológico forte é uma maneira de enfrentar essa situação:

“Devemos e temos que ser fortes psicologicamente, seguir trabalhando em ritmo mais baixo e aproveitar os momentos bons de manejo nas lavouras. Jamais podemos abandonar a lavoura, ou seja, o agro em geral, tanto animais de corte e de leite, produtores, esses, que estão na mesma situação. Devemos abrir os olhos para toda classe da agricultura, pois não se trata da soja do milho, e sim, do povo agricultor que coloca o alimento na mesa de todos”, finaliza.