Agricultura Educação Ibirubá
Crise ambiental e o negacionismo climático
6 dezembro 2021 | Agricultura Educação Ibirubá
Compartilhe:

No início do século XXI, mais fortemente a partir de 2008, o boom da commodites (tanto as commodities de minérios como agropecuárias, especialmente carne e grãos) intensificou a exploração de recursos naturais e as disputas territoriais. Não bastasse isso, a política adotada pelo atual Presidente da república acelerou a destruição ambiental. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgou no dia 18/nov/2021 que a taxa de desmatamento na Amazônia Legal Brasileira (ALB) ficou em 13.235 quilômetros quadrados (km²) no período de 01/ago/2020 a 31/jul/2021. O índice apurado pelo Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) representa um aumento de 21,97% em relação à taxa de desmatamento do período anterior. Segundo o mesmo Instituto, nos quatro primeiros meses de 2020, o desmatamento em terras indígenas da Amazônia brasileira aumentou 64%, em comparação ao mesmo período do ano anterior, e o desmatamento em Unidades de Conservação na Amazônia em 2019 aumentou 41,75% em comparação a 2018.

O Brasil que já foi considerado líder na luta contra o aquecimento global, se transformou em um problema, tanto para a população nacional como mundial, perdendo até mesmo o “posto” de “pulmão do mundo”. Mas é bom lembrar que o Presidente é um crítico do que chama de “indústria da multa” por parte do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão responsável pela fiscalização ambiental, prova disso é que, em dez/2018, afirmou: “Não vou mais admitir o Ibama sair multando a torto e a direito por aí, bem como o ICMbio [Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade]. Essa festa vai acabar”.

Dentro dessa mesma lógica, indo na contramão da ciência, existem associações de produtores rurais que estão bancando palestras dos chamados “negacionistas climáticos”, conforme noticiado no BBC News Brasil em Londres em 18/nov/2021: “Uma sala repleta de estudantes de agronomia assiste a uma palestra sobre mudanças climáticas no Brasil. Estão em uma faculdade no Estado do Mato Grosso, maior produtor de soja do país, ouvindo falar um professor da Universidade de São Paulo. Mas o que escutam é o contrário do que acredita a esmagadora maioria da comunidade científica do mundo. Ali, a mensagem transmitida é de que não existe aquecimento global causado pelo homem”.

A monetização dos recursos naturais somado ao chamado negacionismo climático aumenta a capacidade da espécie humana de autodestruição, como nos fala Noam Chomsky (2017): “há processos de longo prazo, como a destruição ambiental, que a espécie humana desenvolve e nos leva – talvez não a destruição total, mas pelo menos à destruição de uma existência decente”.

O Agronegócio, entendido como a cadeia produtiva agroalimentar, controlada por grandes corporações estrangeiras, concentra riqueza e acentua a crise agrária e a crise ambiental. Segundo o agrônomo Raimundo Pires Silva, em estudo da Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA), em parceria com a organização Friedrich-Ebert-Stiftung Brasil (2021): “Expandir o agronegócio brasileiro é também expandir e reproduzir a grilagem de terras, a expulsão de camponeses, quilombolas e indígenas, a precariedade do trabalho humano, a agricultura de subsistência desprotegida e o desequilíbrio ambiental”. No entanto, nas campanhas de marketing, o agronegócio tenta vender a ideia de que respeita o meio ambiente, os trabalhadores/as rurais e as comunidades tradicionais, mas a realidade nos mostra o contrário. Como diz, Eliane Brum (2021): “a emergência climática não precisa mais de um relatório, basta abrir a janela”.

Diversos estudos e pesquisas científicas destacam a preocupação com o futuro da agricultura, diante do aumento do desmatamento, das mudanças climáticas e do uso excessivo de agrotóxicos. Alguns dos efeitos dessa preocupação já podem ser sentidos, para tanto, basta observar o que está acontecendo aqui em nossa região, especialmente com as lavouras de milho e soja. O fato é que a destruição ambiental tem sido cada vez mais visível, basta atentarmos às variações climáticas, que têm sido cada vez mais severas, a exemplo de estiagens, enchentes, granizo, inundações, entre outros.

Mesmo diante disso, especialmente da crise hídrica em que nos encontramos, o negacionismo climático lamentavelmente parece estar “tomando conta” da espécie humana, cada vez mais alienada e abduzida pela necessidade de acumulação de capital e de aumento da produtividade a qualquer custo. Esse comportamento revela no mínimo que parece não haver preocupação com o coletivo e o futuro do planeta por parte da humanidade.

Enfim, a realidade concreta, os dados/fatos, os estudos/pesquisas servem de alerta para que possamos refletir e agir de maneira consciente e responsável em relação à natureza, e que esta seja tratada como patrimônio para as futuras gerações. Precisamos nos livrar do negacionismo climático, acreditar na ciência, observar a reação da natureza, e, é evidente, nos somarmos à luta em defesa do meio ambiente e do nosso planeta.

Autora:

Raquel Lorensini Alberti, Mestre em Economia Rural (UFV) e Doutora em Desenvolvimento Rural (UFRGS), Professora de Gestão e Desenvolvimento Rural do Curso de Agronomia do IFRS Campus Ibirubá.

Contato: [email protected]