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Enfermeira trescantense conta como superou o Câncer de Mama
8 fevereiro 2021 | Social
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No dia 4 de fevereiro é comemorado o Dia Mundial do Câncer, uma iniciativa global, organizada pela União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). A data tem como objetivo aumentar a conscientização e a educação mundial sobre a doença, além de influenciar governos e indivíduos para que se mobilizem pelo controle do câncer.

Sobre esse assunto, a reportagem do Jornal da Integração conversou com Diana Schumann, que nos contou a sua trajetória e como conseguiu combater o Câncer de Mama.

Diana Schumann é natural de Capinzal, Santa Catarina, e tem 40 anos de idade. Há 39 anos ela reside no Rio Grande do Sul, sendo cinco destes, no município de Tapera, posteriormente em Erechim, e há 28 anos em Lagoa dos Três Cantos, saindo somente a estudos, e trabalhando um ano em Salto do Jacuí como enfermeira. Diana está em uma união estável há quase oito anos e tem um filho de cinco anos. Formou-se em 2006 Bacharel em Enfermagem, fez Pós Graduação em Emergência Pré Hospitalar, além de inúmeros cursos na área e hoje faz pós Graduação em Saúde Pública com ênfase em Saúde da Família. Trabalha na UBS em Lagoa dos Três Cantos desde 2007.

 

Confira a entrevista:

JI: Como era sua rotina antes da descoberta do câncer?

Diana: Tinha um estilo de vida mais tranquilo, me dedicava mais ao trabalho e a família. Depois do nascimento do meu filho Rafael, passei a ter um estilo de vida mais sedentário. Desde os cinco meses ele ia para a escolinha de manhã cedinho e eu buscava ele no final da tarde, então depois deste horário procurava ficar com ele e cuidar dos afazeres da casa, e com isso descuidei um pouco das atividades físicas e outras atividades que poderia estar desenvolvendo pelo fato dele ser novinho e eu querer dedicar mais tempo a ele.

JI: Como você descobriu que estava com câncer?

Diana:  Em 2018 fiz minha primeira mamografia e minha primeira ultrassonografia de mamas, após recomendação do ginecologista. Quando realizamos esses exames, o laudo apresenta uma descrição detalhada do que foi visualizado com o exame de imagem e apresenta uma conclusão em forma de números. Essa conclusão chama-se Bi-rads ou categoria, e vai de 0 a 6. Na época um dos exames concluiu-se com bi-rads 2, o que representa um bom resultado e o outro exame resultou em Bi-rads 3, o que indica a necessidade de acompanhamento semestral para observar a evolução. E assim segui, realizando mamografia e ultrassonografia de mamas a cada seis meses. Havia presença de cistos nas minhas mamas, mas havia também uma outra alteração que sempre era avaliada como benigna através dos exames de imagem. Em dezembro de 2019, realizei os dois exames, e ambos resultaram em Bi-rads 2, uma excelente notícia, pois poderia fazer o acompanhamento anual. Porém, três meses após, em março de 2020 comecei sentir dores na minha mama direita, e como conhecia bem meu corpo, sabia que aquelas dores não eram comuns, eram em forma de agulhadas, fisgadas, em locais diferentes da mama, as vezes doía a mama toda, e essa dor persistiu por dias, então conversei com o médico e fiz novamente os exames. A mamografia teve um resultado normal, bi-rads 2, porém o ultrassom apresentou bi-rads 4, o que sugere realização de biópsia para diagnóstico mais preciso. Então realizei a biópsia diretamente na oncologia de carazinho e para minha surpresa e também pavor, fui diagnosticada com carcinoma in situ.

JI: Como foi a reação de seus amigos e familiares?

Diana: Bem, para a família com certeza foi difícil, pois minha mãe faz tratamento devido a um câncer de intestino desde 2019, período esse que vivenciamos com muitas angústias, medo, preocupações, e concomitante a isso veio o meu diagnóstico. Sei que trouxe mais preocupação, sei que choraram calados entre eles, e também com amigos, mas na minha frente eram uma rocha, e em nenhum momento deixaram de ser meu alicerce e me fazer sorrir. Lembro do dia que voltei da consulta com o resultado da biópsia, uma grande amiga e colega de trabalho veio até mim e sem conseguir falar nenhuma palavra, ela chorou, e neste dia eu estava forte, eu acabei acalmando ela. Neste momento eu tinha o primeiro diagnóstico, que era carcinoma in situ, que significa uma lesão pré-maligna, e minha esperança era de que fosse somente isso mesmo, mas a confirmação viria após a cirurgia. E, é claro, que outros amigos muito próximos, se preocuparam, sofreram comigo, mas foram meus alicerces também.

JI: Como está sendo seu tratamento, dessa descoberta até agora?

Diana: Eu tive meu primeiro diagnóstico no mês de abril (carcinoma in situ). No dia 28 de maio de 2020 fiz minha primeira cirurgia. O material coletado nessa cirurgia para outra biópsia, e dessa vez o resultado apontou que 60% do carcinoma era in situ (pré maligno) e 40% dele era infiltrativo, lesão maligna. Então fiz uma segunda cirurgia no mês de julho para ampliar margens livres na mama, tirando um pouco mais de tecido mamário ao redor de onde estava a lesão e também foi avaliado e retirado o linfonodo sentinela na região axilar para fazer biópsia e ver se as células cancerígenas não haviam atingido eles, que popularmente são chamados de ínguas, e estas, quando são atingidas pelas células cancerígenas, resultam num risco maior de metástases. O resultado foi bem positivo, pois os linfonodos estavam sem alterações. Foi realizado uma terceira avaliação, chamada de imunohistoquímica, que serve para diagnosticar o tipo de câncer de mama que eu tinha, para decidir-se o tratamento. O diagnóstico foi Luminal B, que é receptor de hormônios. No dia 25 de agosto, dia do meu aniversário, quando completava 40 anos de idade tive minha consulta para receber os resultados e tomar conhecimento do meu tratamento, que seria, quatro sessões de quimioterapia e no término delas, 20 sessões de radioterapia. Eu decidi que iniciaria a quimio neste mesmo dia, e assim foi. No dia 28 de outubro eu realizaria minha última quimioterapia, porém peguei coronavirus, então terminei meu tratamento no dia 17 de novembro. No mês de dezembro iniciei minhas radioterapiais e terminei dia 08 de janeiro. Agora sigo em acompanhamento fazendo tratamento via oral, tomando um comprimido ao dia durante cinco anos.

JI: Muitas pessoas aproximam-se do paciente e abordam alguns assuntos que o incomodam. Quais assuntos você acredita que podem ser evitados?

Diana: Eu acho de extrema importância todo tipo de comentário positivo e de superação, pois o paciente que vivencia o câncer passa por fases muito delicadas e precisa ao máximo lutar com muita força e determinação. Eu passei pela experiência de ouvir comentários de uma única pessoa um dia, citando vários exemplos de pessoas que passaram pelo câncer de mama e algum tempo depois tiveram em outros órgãos e vieram a falecer. Foi uma única pessoa, uma única vez, e aquilo acabou com meu dia, me deixou triste, desanimada, chorei. Então, considero um fator bem negativo que prejudica bastante o paciente. Eu sempre procurei conversar com pessoas que superaram o câncer e me focar em todos os casos de superação e vitórias sobre essa doença.

JI: Além de trazer um impacto físico, o câncer traz um impacto emocional também ao paciente. Como você enfrenta essa situação?

Diana: Com certeza traz um impacto emocional muito grande. Eu passei por vários sentimentos, todos eles bem intensos. Primeiro o sentimento de impotência, medo. Mesmo sendo enfermeira, tendo conhecimento sobre a doença, sofri demais. Chorei dias e noites vivenciando uma dor que parecia não ter fim. Pensava muito no meu filho e que não queria e não podia deixá-lo. Eu imaginava como ele ficaria sem a mãe que ele tanto ama. Imaginava ele sentindo saudades, perguntando sobre mim. Imaginava os dias que ele ficaria doente e não teria a mim para acalmá-lo. Pensava em quem iria comprar as roupas dele, acompanhar ele na escola, cuidar dele, dar um colo, um carinho… E aquela dor me dilacerava. É uma dor que a gente tenta evitar mas não consegue. Passei noites rezando e chorando até não ter mais forças. Mas amanhecia, eu me agarrava aos meus alicerces, família, amigos, erguia a cabeça e continuava a luta. Meus amigos e minha família foram fundamentais. Com eles chorei, sorri, desabafei, desandei, pedi socorro… Busquei ajuda psicológica, comecei fazer Reiki, e passei a acreditar e superar. Passei a me imaginar vencendo essa doença, me curando. Eu orava pedindo a Deus que eu tivesse a oportunidade de ver meu filho crescer, se formar, casar, constituir sua família. Orava pedindo para que eu pudesse ajudar muita gente ainda. Eu orava pedindo as coisas mais simples, como ver minhas árvores crescerem e ficarem lindas como sempre sonhei, e me imaginava vivendo tudo isso. Enfim, tudo foi ficando mais sereno. Eu consegui me focar na realidade, no que realmente estava acontecendo e em tudo que havia de positivo, como o fato de eu ter descoberto precocemente e poder tratar. No fato de não ter tido linfonodos comprometidos. No otimismo do médico. E fui me fortalecendo espiritualmente. Hoje vivo com muita gratidão, por tudo que aprendi, por ter superado toda essa trajetória, e por ter tido a oportunidade da cura. Como paciente, sempre digo que pude estar do outro lado e aprendi muito com isso, pois retornei ao trabalho com a certeza de que posso fazer muito mais e ser muito melhor a todas as pessoas que precisarem de mim.

JI: Que recado você deixa paras as pessoas que estão passando pela mesma situação que você? De que forma não desanimar e continuar lutando?

Diana: Que tenham fé acima de qualquer coisa. Que nunca percam a esperança. Que busquem todos os meios para se fortalecer, pois cada um vai ter seus meios e seu jeito de ser forte. Que acreditem também na ciência, pois atualmente existem inúmeros novos tratamentos. Que chorem se for preciso, mas não se entreguem. E que façam o que eu fiz, se preciso for, muitas vezes eu conversava com Deus e dizia que eu não tinha mais forças, e pedia para ele agir por mim. Hoje tenho uma certeza, tudo passa.

Oriento a todas as pessoas a darem a devida importância aos fatores de risco para todo e qualquer tipo de câncer e adotarem um estilo de vida saudável, pois podemos minimizar as chances de desenvolver essa doença se fizermos a nossa parte. Bem como, a todas as mulheres a realizarem seus exames periodicamente e realizarem o auto-exame, pois o câncer de mama tem cura, principalmente quando diagnosticado precocemente.