Agricultura
O que esperar do clima na safra 2020/2021
19 fevereiro 2021 | Agricultura
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As previsões climáticas são baseadas em complexos modelos matemáticos, que utilizam diversos parâmetros de comportamento dos elementos meteorológicos (os quais são muito dinâmicos). Certamente, a maioria dos agricultores da nossa região estava apreensiva com a previsão de ocorrência de um La Niña, fenômeno anormal que ocorre a partir do resfriamento das águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial na costa americana e que influencia as condições climáticas de várias regiões do planeta, inclusive a do sul do Brasil, com reduções na precipitação pluviométrica.

No entanto, apesar da ocorrência de La Niña, por que não vivenciamos estiagem em nossa região? De fato, no último trimestre de 2020 houve um período de maior influência do fenômeno, apresentando dois picos de anomalia na região Niño 1 + 2 (próximo ao litoral do Equador, Perú e norte do Chile) de -1,5 oC no terceiro decêndio de novembro e de dezembro (tropicaltidbits.com). Essa anomalia afetou o padrão de precipitação em nossa região, com chuvas mal distribuídas e em menores volumes, o que impactou negativamente o estabelecimento inicial das lavouras de soja.

Desde o início de janeiro/21, com La Niña atuante, embora enfraquecido, observou-se também um aquecimento da região sul tropical do Oceano Atlântico, o que influenciou positivamente a ocorrência de maiores volumes de chuva no sul do Brasil nos meses de janeiro e fevereiro (até o presente momento). Ao se comparar o volume acumulado de precipitação dos últimos meses registrado na estação meteorológica automática do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) com a normal climatológica, podemos observar uma redução de 36 e 15% para os meses de novembro e dezembro, respectivamente, e um aumento de 35% no mês de janeiro. Para fevereiro, até o dia 15, já ocorreu 57% da precipitação mensal esperada, tendendo a ser mês normal.

A partir da metade de fevereiro e no mês de março/21, espera-se uma redução nas precipitações, mas ficando dentro da normalidade. Isso se torna positivo, visto que a maioria das lavouras de soja se encontra em fase de enchimento de grãos, momento esse, com grande demanda fotossintética e necessidade de radiação solar, que estava sendo limitada nos vários dias com chuva e intensa nebulosidade entre meados de janeiro e início de fevereiro. Ainda, o atual período demanda de manejos fitossanitários nas lavouras de soja, os quais devem ser intensificados após esse período de maior precipitação. Também, a colheita do milho e semeadura da safrinha de milho para silagem demanda de dias de tempo bom.

A longo prazo, iremos perceber a influência do fenômeno La  Niña durante o outono e inverno com transição para a neutralidade na primavera, segundo modelos do IRI (International Research Institute for Climate and Society). Quanto ao inverno, espera-se que seja mais frio, com ocorrência de baixas temperaturas mais cedo, além de menores volumes de chuva (aproximadamente 40% de probabilidade de chuvas abaixo do normal, segundo modelos do IRI).

Enfatizamos que, ao planejar as atividades agrícolas, deve-se ter muita cautela com tendências climáticas, pois a longo prazo essas podem ou não serem confirmadas. Pudemos perceber isso muito bem na atual safra. Ainda, destacamos a importância do produtor acompanhar as previsões climáticas a curto prazo (dias) para realizar as operações agrícolas no campo, como por exemplo, a semeadura, aplicação de produtos fitossanitários e fertilizantes ou até mesmo a dessecação pré-colheita da lavoura. Para isso, existem diversas fontes de informação que utilizam os mais variados modelos de previsão climática. No entanto, alguns se ajustam melhor para uma determinada região, gerando uma previsão mais confiável. Para encontrar a melhor fonte, é preciso confrontar as informações da previsão com o que de fato ocorreu, e para isso dispomos de uma rede de estações meteorológicas automáticas do INMET, sendo que uma delas está localizada em Ibirubá, no Campus do IFRS. A estação monitora e registra a cada hora vários elementos meteorológicos, como a temperatura, umidade relativa, velocidade e direção do vento, radiação solar e precipitação. Esses dados são disponibilizados no site do INMET (https://tempo.inmet.gov.br/TabelaEstacoes/A883#) e podem ser acessados gratuitamente, sendo uma importante ferramenta para os produtores e técnicos no manejo das lavouras.

 

 

 

Autores – Rodrigo Luiz Ludwig, Professor Doutor em Agronomia

Décio Roberto Rauch Júnior – Discente do Curso de Agronomia e voluntário no projeto Agro InForma.

Contato: [email protected]