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Perfil: Angélica Sattler
25 junho 2017 | Sem categoria
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“Eu enfrento desafios todos os dias. O maior deles é levar a informação correta ao telespectador, sem ruídos, sem meias verdades. Trabalhamos oito horas por dia para contar uma história em um minuto e meio, talvez dois. Nesse pequeno tempo, é preciso entrar tudo, da melhor forma, com a maior veracidade possível”

Angélica Sattler fez amizades por onde passou: Tapera, Porto Alegre, São Leopoldo, Passo Fundo, Brusque, Blumenau, Brasília e, agora, São Paulo. Além da credibilidade como jornalista, a taperense de 34 anos, graduada em Comunicação Social – Jornalismo pela Universidade de Passo Fundo, vê no esporte a sua paixão, especificamente a corrida. Ela está treinando para participar da primeira Maratona (42 quilômetros), em outubro, em Buenos Aires. E, depois de anos e anos “dando voltas pelo mundo”, reencontrou sua paixão de adolescência, o também taperense José Augusto Castro.

“Pode parecer estranho, mas eu não descobri o Jornalismo, descobriram para mim. Quando terminei o Ensino Médio, fiz uma viagem de três meses para a Alemanha, na casa dos meus tios. Numa manhã qualquer, eu estava no porão recolhendo roupas do varal e conversando com minha tia. Falávamos sobre profissões. Eu não sabia o que queria. Pensava em Artes Cênicas ou Turismo. Minha tia falou: “Angélica, você é tão comunicativa, gosta de ler e escreve bem. Acho que você deveria ser jornalista”. Aquelas palavras foram luz para os meus olhos. Eu apostei na ideia. Na faculdade fui perceber que era mesmo o que eu queria para a minha vida”.

Ela mesma relata: Quando ainda estudava em Passo Fundo, trabalhei no jornal e rádio AM Diário da Manhã e na rádio Atlântida. Mas comecei minha carreira mesmo, depois de formada, em Brusque. Lá trabalhava para uma produtora e fazíamos um telejornal chamado “Empresas & Mercados”. Tínhamos uma equipe muito pequena e eu participava de todos os processos: era produtora, repórter, editora de texto e apresentadora. O programa não vingou e eu me mudei para Blumenau para trabalhar na TV Galega – uma emissora local em canal fechado. Alguns meses depois, recebi uma proposta para trabalhar como repórter na RIC Record (afiliada da Record em Blumenau). Digo sempre que foi quando me apresentei, de fato, para o Jornalismo e ele para mim. Ao fazer a cobertura da enchente em 2008, me apaixonei de vez pela profissão. Foi uma oportunidade e tanto. Contei tantas histórias, vi tanta tristeza e tive a oportunidade de ajudar muita gente usando a comunicação. Fiz inúmeras matérias e entradas ao vivo para todo o Brasil na programação da Record. Foram três anos de RIC e surgiu, então, a oportunidade de ser correspondente em Brasília pela mesma emissora. Desembarquei na Capital Federal no dia 1º de maio de 2011, Dia do Trabalhador. Vai ver por isso nunca me faltou trabalho, graças a Deus! Passaram-se três meses e a RBS me chamou. Além de matérias políticas e de agronegócio (porque também produzia conteúdo para o Canal Rural), fazia entradas ao vivo todas as manhãs para o Bom Dia Rio Grande e Bom Dia Santa Catarina. Mas eu sempre gostei de trabalhar na rua, com pessoas, cobrir factuais. Apesar de ter sido uma grande experiência, a política não era meu chão. Decidi tirar férias e procurar emprego em São Paulo e no Rio de Janeiro. Bati de porta em porta com o currículo embaixo do braço. Quem abriu foi a Record. Há dois anos e meio, sou repórter do ‘JR’, o Jornal da Record.

Quais são as suas influências, no trabalho e na vida?

Na profissão, foi Caco Barcellos quem mais me inspirou. Gostava das matérias investigativas dele e me apaixonei pelos livros que escreveu. Um deles, o “Abusado”, foi tema do meu trabalho de conclusão de curso. Naquela época, Caco Barcellos foi dar uma palestra para estudantes de Jornalismo em Passo Fundo. Mantivemos contato e ele foi superacessível. Barcellos morava em Paris e, mesmo à distância, me ajudou na conclusão do trabalho. Numa viagem dele ao Brasil, consegui gravar uma entrevista em Porto Alegre para apresentar no dia da banca. O resultado foi excelente. Aquele profissional que eu sempre admirei, virou amigo e meu apreço por ele é imenso. Hoje, minha influência vem também de muitos outros jornalistas. Alguns, meus colegas de trabalho. É inspirador trabalhar ao lado de quem você admira.

Na vida, minha influência vem de casa. Meus pais me ensinaram a trabalhar desde cedo. Olhando para eles aprendi que posso alcançar o que eu quiser se eu batalhar (pesado) por isso. De ambos, eu herdei a persistência. E devo a eles a capacidade de acreditar nos meus sonhos. Não esqueço de quantas vezes eu liguei chorando para casa nos finais de domingo (quando já tinha saído de Tapera) e meu pai dizia: “Filha, nós também estamos com saudade… mas o seu lugar é aí, em busca do teu sonho”. Minha irmã, Carla, é outra influência. Desde pequena via ela subindo degraus e eu pensava: um dia vou fazer igual. Nossas escolhas profissionais foram muito diferentes. Mas com ela eu aprendi os “meios” para chegar onde se quer: coragem, respeito pelas pessoas, sinceridade e determinação.

Como você vê a questão ética no jornalismo brasileiro hoje?

Vejo que o jornalismo brasileiro tem um padrão ético muito bom. O que me incomoda é saber que muitos jornalistas buscam, incansavelmente, o furo da notícia sem se preocupar com a verdade da informação, colocando em risco a fonte e a própria carreira. Ainda mais em tempos com tantas redes sociais, onde a notícia viraliza em questão de segundos e pode tomar proporções irreversíveis. Para mim, vale mais a informação correta e completa – mesmo que um pouco mais tarde – à notícia instantânea e duvidosa.

Qual foi episódio mais marcante da sua vida?

Eu já contei muitas histórias. Algumas lindas com finais felizes, outras tristes que me fizeram chorar. A maioria delas lembro com muito carinho. Mas dois momentos me marcaram muito: a enchente no Vale do Itajaí, em 2008, e a minha viagem ao Haiti, em 2011 – um ano após o terremoto que devastou a capital Porto Príncipe. As duas experiências foram tristes, envolviam pessoas que tinham perdido tudo, choravam a dor da morte de pessoas queridas, estavam doentes ou precisavam de ajuda. Mas foram momentos de intenso aprendizado profissional e pessoal. Para conseguir trabalhar com notícias tão tristes, aprendi a separar a “Angélica jornalista” da “Angélica filha, irmã, mulher”. Só que nunca consegui deixar de me comover com o sofrimento das outras pessoas. À noite, depois de exaustivos dias de trabalho, deitava no conforto da cama, lembrava de todas as histórias que ouvi e muitas vezes chorei.

Viagem realizada em 2011, ao Haiti

Apesar de jovem, ao longo de sua experiência você já ganhou prêmios, mora na maior cidade do país e trabalha em uma grande emissora de TV. Pode-se dizer que você chegou onde queria? E o futuro?

Eu ganhei dois prêmios no início da minha carreira, ainda em Blumenau. Primeiro, em 2008, o troféu Rodolfo Sestrem de Jornalismo, na categoria “Revelação/Rádio e TV”. No ano seguinte, o mesmo troféu na categoria “Melhor Repórter de TV”. Foi superimportante pra mim esse reconhecimento. Mas eu diria que ganhei outros prêmios ao longo do tempo. Um deles é a experiência. O outro é o de poder trabalhar com o que eu amo.

Digo que sim, cheguei onde queria. Eu sempre quis ser repórter de rede nacional. E aqui estou. Hoje, eu levo informação ao Brasil inteiro. Ainda sonho em apresentar um programa. Um objetivo ousado, eu sei, mas sonhar não custa nada e ajuda a fortalecer e encorajar a luta.

Com os pais Rivaldo e Isabela Sattler

“A tecnologia e o avião foram as melhores invenções do mundo para matar a saudade, uso e abuso das duas. Exploro muito a primeira e, quando ela não é mais suficiente (às vezes até antes disso), me jogo para a segunda. Morar distante da “nossa casa” só nos faz enxergar coisas boas. Eu amo Tapera!”