Agricultura
Plantio Direto: duas gerações dedicadas à conservação do solo
30 julho 2017 | Agricultura
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A trajetória de Nercio e Vanderlei Neu nas mais de duas décadas de plantio direto na Granja Vania

Em Linha Carolina, interior de Quinze de Novembro, há uma propriedade rural modelo de manejo no sistema Plantio Direto. Há mais de duas décadas plantando na palha e sendo conduzida por pai e filho, a Granja Vania tem na rotação de cultura e conservação do solo o motivo de altas produtividades de soja.

No local residem Vanderlei Neu (42), a esposa Maria Helena, o pai de Vanderlei, Nercio Neu (66), e o pequeno Lucas, filho do casal. A propriedade leva o nome de Vania Neu, filha de Nercio e irmã de Vanderlei, Doutora em Ecologia que reside em Belém do Pará, autora de diversos livros na área.

Nercio adotou o plantio direto desde o início, nos anos 90 e sua persistência trouxe resultado. “Começamos com 100% da área, enquanto a maioria começou com dez, 5%. Fui teimoso, sou alemão (risos). Fui fazendo do meu jeito, inventando, adaptando. Mas no início não foi fácil, porque não tinha a informação certa, nem os agrônomos sabiam ao certo. Plantava azevém para proteger o solo e fazer palha. Eu já fazia o plantio direto com as plantadeiras convencionais, fazia do meu jeito”, contou o agricultor, relatando que a regulagem da plantadeira e o controle das ervas daninhas eram desafios.

Vanderlei fazia o Curso Técnico em Agropecuária na Escola Agrícola de Sertão. Ao longo destes 22 anos, ele é um grande entusiasta do plantio direto, tanto que se formou em Agronomia na Unicruz, o que foi fundamental para a continuidade do uso da técnica.

“Lembro quando estava no colégio agrícola, quando muitos agricultores não acreditavam no plantio direto e outros ainda defendiam o plantio convencional. Caminhando pela lavoura com o pai, a soja pequena, sofrendo com a falta de água, vimos um monte de palha. Por baixo, o solo estava úmido, e o resto da lavoura seca. Aquilo chamou atenção, e então pensei que o plantio direto tinha que dar certo”, conta Vanderlei.

Recentemente, Neu venceu um concurso nacional de produtividade, campeão no Rio Grande do Sul: em uma área de 2,7 hectares, a produtividade chegou a 102,7 sacas por hectare – resultado inédito na região. No Rio Grande do Sul, ninguém conseguiu chegar a 100 sacas em 2017. O grande campeão é do Paraná, com 149scs/ha. Porém, conforme Neu, a realidade naquele Estado é diferente, pois foram os pioneiros no implante do Plantio Direto, isso há 40 anos.

A Granja Vania tornou-se referência e recentemente recebeu alunos de Agronomia da UFSM. Em agosto, isso deve se repetir, desta vez com acadêmicos da Unicruz. “Chegar nesse nível de produtividade não é coisa para amadores, é nível profissional”, disse Neu.

Vanderlei e seu pai realizaram em fevereiro de 2015 uma grande festa para comemorar os 20 anos da implantação do sistema plantio direto no RS. Construíram um marco para simbolizar, inaugurado naquele dia. Em 2019, pretendem fazer outra para o jubileu de prata.

Maria Helena, Vanderlei, Nercio, Lucas e o cão Fofinho junto ao marco dos 20 anos plantio direto no RS

Problemas de manejo do solo

Questionado sobre a produtividade, Vanderlei afirma que ela não tem nada a ver com a escolha dos melhores insumos ou cultivares, e sim um único e determinante fator: a conservação do solo. Desde que se entra na propriedade, é notório o cuidado que a família tem com a preservação da natureza, principalmente o solo. Não há um único lugar visível sem alguma cobertura no chão: grama, árvores ou outras plantas.

“Este trabalho começou 30 anos atrás, quando meu pai decidiu cuidar do solo através de um trabalho de conservação. Em 94, iniciou o plantio direto na palha, e nesta época eu estudava em Sertão. Comecei estudar e vi que o jeito de fazer plantio direto precisava de mudanças, pois todo o RS estava perdendo solo em função do mau manejo. E isso vale também para os dias atuais: hoje, se faz um plantio direto mal conduzido, com pouca palha, pouca estruturação de solo. Há 23 anos, fizemos em nossa propriedade um plantio com rotação de palha e de culturas, e isso faz toda a diferença. Faço palestras em universidades e sempre costumo afirmar que o jeito que o Estado trabalha hoje com o plantio direto não está se sustentando. Aquilo que acontecia há 30 anos no plantio convencional voltou a acontecer com o plantio direto, por mau manejo do solo. Voltou a ter muita erosão, valetas são frequentes nas estradas. Logo, muitas áreas vão ter que começar fazer processos de subsolagem de uma forma diferente, a própria questão de terraço de curva nível é algo que com certeza vai ter de voltar em muitas situações”, explica Vanderlei.

De onde vem essa alta produtividade?

“Aqui é diferente, cuidamos para nunca deixar o solo descoberto, e isso se vê desde a entrada da propriedade. Tudo faz parte da conservação do solo. Com auxílio da minha irmã Vania, conseguimos desempenhar este trabalho e otimizá-lo da melhor forma possível. Trabalhamos muito na questão da conservação do solo e da água. Tem de haver um equilíbrio entre agrônomos e ecologistas, não somente briga. Quanto aos agrotóxicos, sabemos que não dá para viver sem, mas cuidamos para aplicar da melhor forma possível, evitando ventos e alta temperatura”.

“No tempo do plantio convencional, o pessoal só passava um pé de pato e isso soltava o solo. Hoje, a única forma de fazer isso é com o sistema radicular de milho ou de culturas que tem bastante raiz. E ninguém mais planta milho em função do clima e preço. Por isso, não tem mais infiltração de água no solo, e quando ocorrem chuvas intensas, ocorre a erosão. E aqui na propriedade praticamente anulamos esse problema: é muito difícil acontecer alguma erosão. E tudo isso é em função desse trabalho, de sempre ter plantas de cobertura que tem um sistema radicular bem agressivo para soltar o solo. Por isso, sempre temos sucesso na colheita do soja, trigo e milho, e esse sucesso vem a mais de duas décadas, desde que insistimos em produzir muita palha”, disse Vanderlei.

“Teu pivô é o teu solo”

Neu afirmou que o plantio na palha iniciou ainda nos anos 80, mas que na região do Alto Jacuí iniciou nos anos 90. Na época, todos começaram a implantar, mas não da mesma forma dos Neu. “A grande diferença se vê em anos de seca. Para nós, a média de produtividade não baixa muito de um ano chuvoso para um ano de seca. Não temos pivôs: o teu pivô é o teu solo, esse é o grande diferencial. Já colhemos, inclusive, 200 sacas de milho por hectare, e 170/180 é normal. Teve anos em que o Estado colheu 20 sacas de soja em média e nós colhemos 50. O diferencial é o solo, que armazena água. Se tu tens uma camada de 50, 60 ou 70 centímetros que armazena água, a planta tem condições de tirar dali (a água) para se manter em um período de seca. Num solo compactado, em primeiro lugar, não infiltra água, e, em segundo, não tem onde armazenar essa água”.

A triste situação do trigo no Estado

Sobre a cultura do trigo, Vanderlei afirmou que cultivam o cereal na Granja Vania, não como fonte de renda, mas como cultura auxiliar na conservação do solo. “Por certo, nenhum agricultor deveria plantar trigo, porque aqui acham bonito importar da Argentina ao invés da dar boas condições ao produtor brasileiro para trabalhar com essa cultura. Imaginem quantos empregos não seriam gerados se nossa área de plantio de trigo fosse maior. Mas, a cada ano, diminui mais. Nós não plantamos trigo para ganhar dinheiro, se ficar no zero a zero e pagarmos o custeio já estamos no lucro. E é triste dizer isso, pois todos que plantam esperam algum retorno financeiro. No nosso caso, queremos apenas a palha para conservar o solo e agregar na cultura da soja. No ano passado, tínhamos trigo estocado de 3 anos, e conseguimos vender a R$ 50,00 a saca porque não tinha mais no mercado. É triste a maioria ter de parar de plantar para aqueles que plantam ter um pouco mais de rentabilidade”, lamentou.

O Rei da Palha

Neu contou que, antigamente, a família trabalhava com a atividade leiteira. Mas, após o falecimento da mãe, o rapaz conseguiu convencer o pai a deixar a atividade de lado. “O que mais me doía era ver as vacas compactando o solo, ver o gado estragando a palha, estragando nossa maior riqueza. Sem falar que o serviço é uma escravidão, não tem final de semana, não tem feriado”, acredita.

Estimulado a estudar pelo pai Ercio, Vanderlei quer transmitir os ensinamentos ao filho. “Já atribuí a ele o título de ‘Rei da Palha’. Não há troféu maior para um agricultor do que ver que todo o trabalho e esforço renderam bons frutos. E eu quero passar isso para esse gurizinho. Desde novinho, com apena 45 dias, levei ele junto colher soja. Em primeiro lugar, quero fazer dele um grande homem, mas também um grande agricultor, de preferência também agrônomo (risos)”.

  Vanderlei com Lucas, de apenas 5 meses

Emater Conservacionista

A Família Neu se inscreveu para participar do concurso da Emater Agricultor Conservacionista. Inclusive, a propriedade é a única do Município de Quinze de Novembro – talvez a única que esteja em condições de participar da competição. “Acredito que tenho grandes chances de ser campeão estadual. Na questão de solo, tenho certeza que estamos muito à frente dos demais, mas a competição em si engloba todo um contexto da propriedade. No pátio, onde não tem lavoura tem árvore, tem grama, praticamente já não tem mais solo descoberto. Na lavoura, é nabo forrageiro, aveia, azevém, enfim, qualquer planta, só não podemos deixar o solo descoberto”, repetiu.

Solo: instrumento para otimizar custos

De acordo com os estudos de Neu, é impossível o agricultor baixar o custo dos insumos e diesel, ou controlar o preço da soja. “Não tem de onde tirar custos, e por isso mesmo a única alternativa é cuidar do solo para não haver perdas. Se o agricultor acabou de fazer uma aplicação de calcário e chove 300mm, como choveu em maio, vai tudo para os rios, e isso sim é uma grande perda. Portanto, devemos evitar perdas, mas não querer baixar custos. Aliás, podemos até baixar custos, mas isso, consequentemente, vai diminuir a rentabilidade. A solução é cuidar bem do solo para ele ser cada vez mais fértil e, com isso, evita-se as perdas”, finalizou Neu.

 

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Foto em destaque: Ercio, Vanderlei Neu e o pequeno “Rei da Palha” na lavoura de aveia