Ibirubá
PREÇO DOS ALIMENTOS E COMMODITIES NO BRASIL
22 novembro 2021 | Ibirubá
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O preço dos alimentos no Brasil tem aumentado de forma acelerada, especialmente, a partir de meados 2020. E diante de tal comportamento, observamos muitas conjecturas a respeito da “causa” ou dos “culpados” pelo referido aumento. Na verdade, o que explica o preço dos alimentos são vários fatores, resultados de escolhas políticas típicas de país periférico (que é o caso do Brasil), somado ao comportamento rentista e especulativo da elite do agronegócio. Dito de outra forma, a alta dos preços dos alimentos se deve a três grandes fatores: pressão cambial (alta do dólar), inflação e o desmonte da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

Os alimentos que chegam à mesa de todos/as brasileiros/as, costumavam, historicamente, ser regulados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), empresa pública, ligada ao Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA), responsável pela estocagem de grãos produzidos no País, um dos reguladores internos do preço dos alimentos. Além disso, a Conab possui uma função social baseada na doação de alimentos e no fornecimento de insumos para pequenos agricultores.

O desmonte da Conab se dá, especialmente a partir de 2019, em que foram vendidas inúmeras unidades e imóveis da companhia. Cabe ressaltar, que além do desmonte da Conab, o governo atual extinguiu, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e reduziu investimento no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). É inaceitável o está acontecendo no Brasil, pois, mesmo sendo um dos maiores produtores agrícolas do mundo e com mais de 200 milhões de brasileiros/as para alimentar, não tenha qualquer controle sobre a formação de preços, e sem qualquer reação por parte do governo federal, assistimos, a cada dia, milhões de pessoas passando fome. Para constar, segundo levantamento Rede Penssan, quase 20 milhões de brasileiros declaram passar 24 horas ou mais sem ter o que comer em alguns dia. O mesmo estudo, reproduzido pela Folha de São Paulo na edição de (13/10/21), mostra que outros 74 milhões vivem inseguros sobre se vão acabar passando por isso”. Ou seja, mais da metade da população brasileira sofre algum tipo de insegurança alimentar.

John Maynard Keynes, economista britânico, já na década de 20 do século passado, propôs o Commod Control, ou seja, julgava importante o Estado, instituir mecanismos de regulação de preços para produção agropecuária, afim de proteger produtores e consumidores, frente as oscilações bruscas de preços. No entanto, o Brasil, diferentemente de vários países, a exemplo dos EUA, países europeus e China, que estão fortalecendo mecanismos de regulação de preços, como por exemplo, a ampliação da política de “estoque reguladores”, o Brasil está destruindo, deixando os brasileiros, especialmente a população de baixa renda, que não são poucos, a própria sorte.

Os estoques reguladores, cumprem inúmeras funções, mas a principal delas, sem dúvida, é regular preços. No caso do Brasil, que abandou a politica de “estoques reguladores”, ficou totalmente vulnerável ao comportamento especulativo e rentista do mercado futuro de commodites. E sendo assim, o preço dos alimentos, não dependem apenas das condições de oferta e demanda corrente, mas também, das expectativas projetadas no mercado futuro, mas especificamente, do comportamento do mercado especulativo de commodities operado nas grandes bolsas do mundo, a exemplo da Bolsa de Chicago nos EUA.

Atualmente, um exemplo, efeito intensificado pela falta de estoques reguladores é a ligação direta, entre a alta do dólar e o aumento do preço de alimentos. O câmbio é vantajoso para exportações, que estão crescendo, o que diminui a oferta interna. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) – Banco Central do Brasil, em 27/out/21, a Selic foi elevada para 7,75% e que pode refletir no comportamento cambial e por consequência de uma “maneira muito indireta e tênue” de controlar a situação.

Uma reflexão, em torno de alguns pontos, se faz necessário para entender até onde a situação pode chegar. O Brasil vem registrando recordes de desemprego, crescimento do subemprego e do trabalho informal, salários cada vez mais precarizados, a produção cada vez mais cara, especialmente por conta do aumento dos preços da energia, do combustível e da matéria prima (importada). Mesmo diante de tal cenário, não se observa qualquer reação do governo, o que nos permite concluir, que o Brasil caminha, e em velocidade cada vez mais acentuada ao aprofundamento da situação atual, qual seja, do empobrecimento, fome, desemprego e por aí vai.

 

Autora:

Raquel Lorensini Alberti, Mestre em Economia Rural (UFV) e Doutora em Desenvolvimento Rural (UFRGS), Professora de Gestão e Desenvolvimento Rural do Curso de Agronomia do IFRS Campus Ibirubá.

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