Saúde
Projeto Anjo da Guarda: aventura, gratidão e ajuda ao próximo
10 outubro 2016 | Saúde
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Conheça a história da dentista ibirubense Lourdes Krammes,                                                   que atuou voluntariamente no Pará

A ibirubense Lourdes Krammes, 62 anos, exerce a profissão de odontóloga há 39 anos. Formada pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a dentista trabalha na área desde a década de 70, e sempre se interessou em ações e projetos de auxílio a pessoas necessitadas. Um exemplo disso é sua atuação na Fazenda Esperança, em Casca, desde 1996, no atendimento a pessoas de baixa renda com dependência química. Durante sua graduação, ainda, participou do Projeto Rondon e de diversas atividades com pessoas carentes em Pelotas.

Porém, foi em agosto deste ano que a odontóloga teve a maior e mais gratificante experiência de sua vida. Em um misto de coragem, espírito aventureiro e vontade de ajudar ao próximo, Lourdes embarcou no dia 6 de agosto para o pequeno Afuá, no Pará, onde permaneceu por 15 dias.

Ela foi ao município de 14 mil habitantes participar voluntariamente do Projeto Anjo da Guarda, desenvolvido pela Missão dos Carismáticos da Igreja Católica, que leva até a comunidade carente diversas atividades, como alfabetização, reforço escolar, aulas de instrumentos musicais, informática, oficinas de artesanato, além da confecção e distribuição de alimentos.

Odontólogos e médicos de todo o Brasil são voluntários e vão mensalmente ao local para ajudar o próximo: lá não há hospitais, postos de saúde e muito menos consultórios de odontologia.

Em uma animada conversa na tarde de sexta-feira (30/9) em seu consultório, Lourdes contou à Reportagem do VR detalhes de sua aventura. “O objetivo da Missão é atender as pessoas carentes e evangelizar as famílias e crianças. Sendo assim, em meio à imensa pobreza e miséria, foi montado um grande centro, o qual abriga o Projeto Anjos da Guarda. Fui convidada a ir por uma ex-colega de graduação, em um encontro de ex-formandos ocorrido em Balneário Camboriú. Sendo assim, eu e mais dois colegas embarcamos no dia 06/8. Chegando lá, através um consultório móvel montado de improviso com cadeiras de praia e doações (remédios) que levamos daqui e também da Igreja, atendi crianças e adultos de Afuá, que na verdade é uma ilha, e também os ribeirinhos (índios), que residem próximos a ilha. A média dos meus atendimentos ficou em 35 pessoas ao dia, e ao final da minha estadia realizei quase 400 atendimentos”, explicou.

“Como Afuá é uma ilha totalmente isolada, cercada pelas águas do grande Rio Amazonas, o único meio de transporte utilizado são bicicletas, além, é claro, dos barcos. No lugar das ruas, existem calçadas. As casas são todas no modelo ‘palafitas’, ou seja, mais altas em relação ao solo, pois todos os dias a maré do rio (Amazonas) sobre cerca de cinco metros, alagando tudo. Me chamou atenção que lá a realidade é muito diferente daqui: não existe um sistema de esgoto, não existe água tratada e nem redes de energia elétrica. A luz do município vem através de um gerador, e eles usam a própria água do rio para cozinhar, beber e tomar banho. Quanto ao sistema de esgoto, é tudo diretamente largado na água. Por isso, tem tantas doenças por lá”, pontuou a dentista.

Conforme Lourdes, a subsistência dos moradores do pequeno município vem de uma fábrica de palmito, extração de açaí, madeireiras e da fabricação de farinha de mandioca. “Os fazendeiros exploram demais os trabalhadores, que ganham uma verdadeira miséria e chegam ter as pernas amputadas na extração das matérias primas. Para se ter uma ideia, os fazendeiros colocam até mesmo veneno nas árvores, no caso das madeireiras, ocasionando a morte de peixes. Por esse motivo, até mesmo a pesca está dificultada. O prefeito nem sequer reside no município. Lá, o calor é intenso diariamente, o que causa hemorragias na população. Após as 15 horas não há ninguém na rua, pois a temperatura fica ainda mais insuportável. No local, não há bancos, e para que possam receber o Bolsa Família, precisam ir até Macapá. Como o preço da passagem de barco é caro, deixam acumular três meses para só então retirar o dinheiro. Eles vivem da fé, são muito religiosos, e tem absoluta devoção à Nossa Senhora da Conceição”, destacou.

O Projeto Anjo da Guarda foi criado há 20 anos, por uma paranaense que hoje reside em Afuá. Conforme Lourdes, a Igreja tem como missão levar uma mensagem de fé e mudar a visão dos moradores acerca do mundo, fazendo-os acreditar que podem ultrapassar todas as barreiras e construir um futuro melhor, principalmente as crianças.

A dentista Lourdes revelou, ainda, um grande problema enfrentado no município paraense: “Como Afuá fica muito perto da Guiana Francesa, lá existe muita exploração sexual infantil, prostituição, pedofilia e tráfico de órgãos, devido ao grande número de estrangeiros próximos ao local. Porém, na ilha de Afuá eles prezam muito a família, e praticamente não há crianças e velhos abandonados, apesar de as famílias serem numerosas e as meninas engravidarem cedo. A água possui um cheiro muito forte, ruim. E, uma grande curiosidade que constatei por lá, é de que o açaí, abundante naquela região, tem propriedades que ajudam a conservar os dentes. Achei que, chegando lá, ia encontrar muitos problemas com cáries, mas, pelo contrário, devido ao grande consumo de açaí, problemas maiores na dentição dos habitantes não foram encontrados, com exceção da má formação dentária de alguns, o que dificilmente pode ser corrigido com poucos recursos”.

Ao ser questionada se retornaria ao local, Lourdes, sem pensar duas vezes, destacou sua gratidão: “Com certeza. Apesar de ter sido dias difíceis, onde dispomos de poucos recursos para permanecer no local e desempenhar nossas atividades, não há nada no mundo que pague a sensação em poder ajudar a quem realmente precisa. Para eles, nós, voluntários, éramos astros, estrelas, e fomos tratados muito bem. A visão do pôr do sol naquele lugar também era linda, esplêndida, uma sensação única e impagável. Recebi o triplo de gratificação ao ver o sorriso daquelas crianças felizes. Com certeza, se um dia eu tiver oportunidade, pretendo voltar lá”, finalizou.7saudelourdes1 7saudelourdes4 7saudelourdes3