Educação
Projeto da Secretaria de Educação de Ibirubá pode se tornar referência
27 agosto 2017 | Educação
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A Secretaria Municipal de Educação, Cultura, Turismo e Desporto de Ibirubá, por iniciativa da Secretária Mariana Ribas Moraes, deu início no dia 15 de agosto a um importante projeto de Implantação da Política Municipal de Processos Circulares, Mediação e Justiça Restaurativa na Rede Municipal de Ensino. O projeto é composto por gestores da SMECTD, professores, tutores e alunos da rede municipal, e o Professor Maicon Rodrigo Tauchert, o qual está assessorando o desenvolvimento do projeto. Maicon é formado em Direito pela Unicruz, possui Mestrado em Direito pela URI Santo Ângelo e é Doutor em Desenvolvimento Regional pela Universidade Federal do Tocantins, de onde retornou recentemente.

O projeto iniciou no dia 15 de agosto na EMEI Planalto, e a escola terá sua segunda etapa dia 5 de setembro. A Escola Floresta também vai aderir. O primeiro treinamento com professores e gestores da escola, denominado “Processo Circular”, aconteceu na noite de segunda-feira (21).

As escolas têm autonomia para decidir se querem aderir ao projeto. Durante a formação dos professores, realizada em julho, o Professor Maicon abordou o assunto com os docentes, em conferência ministrada na Casa de Cultura. Na ocasião, a EMEI Planalto e EMEF se candidataram a participar. “Conforme os resultados forem aparecendo, tenho certeza que as demais escolas também irão aderir”, afirmou Mariana.

O projeto objetiva aplicar instrumentos como uma política pública de desenvolvimento no tratamento de conflito pessoais e interpessoais, para a construção da cultura da paz entre os envolvidos direta e indiretamente no projeto. “Este é um projeto piloto que está sendo implantado no município, mas que, se der certo, poderá se tornar referência para todo o país”, destacou Mariana.

  Mariana Moraes e Maicon Rodrigo Tauchert

 

 

Sinergia de um senso moral coletivo na comunidade

A escolha dos métodos de desenvolvimento humano e das formas de tratamento de conflitos utilizadas no projeto estão embasadas em resultados comprovadamente exitosos em países como Canadá, Nova Zelândia, Estados Unidos, Noruega, Suécia e Holanda, onde esses procedimentos acontecem em grande sintonia com princípios de integridade ética e moral do ser humano em seus processos relacionais. O projeto pretende, sobretudo, desenvolver um senso moral coletivo, que será a essência para a construção de um município com sólida cultura de desenvolvimento humano.

Para entender melhor como funciona o projeto na prática, a Reportagem do VR conversou com o Professor Maicon na sexta-feira (18), durante treinamento que ele desenvolvia com os gestores da SMECDT. “Estamos indo até as escolas apresentar uma nova forma de ser no mundo, através da comunicação não violenta, título do livro no qual é baseado uma dimensão do estudo, inclusive. Nessa primeira abordagem, queremos sensibilizar os educadores e gestores, e num segundo momento, os alunos e seus familiares. Talvez, com o tempo possamos também inserir as demais comunidades, através das associações de bairros. Essa abordagem objetiva transformar vidas, e não tem nada a ver com auto ajuda – é ciência.  Após essa sensibilização, pretendemos implantar o projeto de política pública de processos circulares, mediação e justiça restaurativa”, explicou.

 

Entender as diferenças e a solução de conflitos

“A atividade é constituída num círculo, que é a prática do processo circular, em duas escolas, mas vamos devagar, mostrando nossa ideia a todas as pessoas que conseguirmos. Anteriormente, palestrei para a rede de professores falando sobre a filosofia desta forma de ser no século XXI, e é o que vamos aplicar nas escolas. Mas, para isso, temos que fazer antes um curso para o pessoal saber aplicar essas técnicas. Já vi esses programas serem aplicados em escolas de países como Canadá e França, onde são desenvolvidos um conjunto de valores tão fortes nos participantes dos programas que eles dificilmente entram em conflitos, pois aprendem a entender o outro, entender as diferenças e sabem lidar com o próximo com educação e respeito. E, mesmo assim, quando ainda há conflito, eles mesmos sentam em círculo e resolvem as diferenças deles ali, todos juntos, e quando crianças, até mesmo sem precisar da interferência de adultos. De vez em quando, quando há um problema maior, aí é aplicada a justiça restaurativa, que é para fazer com que os envolvidos no acontecido e especialmente o indivíduo que cometeu o ato infracional restaurar a paz através de um processo diferente. É circular também, mas voltado, propriamente dito, para a infração, chamado de Justiça Restaurativa. A mediação é voltada para relações de conflitos entre amigos, parentes, colegas de trabalho, dentre outros que configurem relações continuadas, contudo, os processos circulares seriam o método basilar”, explicou Maicon.

Treinamento para professores da Escola Floresta no dia 21

A construção de uma cultura de paz

Em uma abordagem mais simples, o professor afirmou que a intenção é basicamente dar fundamento emocional e intelectual para as pessoas lidarem com as diferenças e superarem seus próprios paradigmas. “Queremos possibilitar às pessoas a construção conjunta de uma cultura da paz. Essa é a melhor definição. No Brasil, o Poder Judiciário e o Conselho Nacional de Justiça trabalham com muita força nessa perspectiva, da cultura da paz. Por exemplo, ouvimos falar diariamente em mediação, conciliação, semanas nacionais de conciliação, tudo é voltado para isso. Porém, isso já é aplicado em outros países, em todas as formas de relacionamento humano. Lá, esses processos de construção conjunta da paz entre as pessoas se aplicam desde os presos dentro das penitenciárias até os executivos de alto escalão. Mas, para isso, é necessária uma reformulação pessoal e da forma de ser com o outro, até porque não reconhecemos o outro como alguém igual a nós, mas sim diferente. E na cultura da extrema competitividade essa diferença sempre deve ser aniquilada”.

O fato do ser humano se colocar sempre em uma posição central e acreditar ter razão em tudo que diz é um dos importantes fatores que geram os conflitos, nos mais diversos lugares: nas escolas, em casa e no trabalho, dentre outros. Por sua vez, a falta de tolerância, a incapacidade de lidar com as diferenças e de construir uma solução conjunta, resulta em pilhas e mais pilhas de processos no Judiciário. “Nosso objetivo é justamente ensinar as crianças desde cedo a conviver e respeitar as diferenças, respeitar o outro com alteridade, desenvolver o senso de pertencimento comunitário, corresponsabilidade e comprometimento com as pessoas e com nosso município. Já fiz tanto, por tantas pessoas pelo mundo afora, que hoje o sonho da minha vida é implantar isso aqui, na minha terra, como uma política pública. Minha missão nesta cidade, como filho de Ibirubá, estará cumprida no dia em que eu ver o que vi em outros lugares, com as crianças mesmo resolvendo seus problemas e, por consequência, construindo uma cultura da paz e do desenvolvimento conjunto. Imagina só, quando forem adultos saberão lidar com as diferenças uns com os outros, e isso seria muito bom, daria outra visão para evolução da sociedade como um todo, até porque o projeto se baseia na reformulação de valores e no resgate dos valores que com o tempo foram se perdendo”, disse.

Evolução do trabalho

Na sexta-feira (18), Maicon aplicou treinamento para os gestores da SMECTD, onde a temática abordada foi as relações entre colegas de trabalho. “Existem diversos tipos de círculos, até em casa dá para fazer, pois são realizadas perguntas e exercícios norteadores que fazem com que as pessoas se conectem e construam uma ética para todo o grupo. Tudo é construído conjuntamente, todo mundo é responsável. Após os treinamentos, estaremos aptos a aplicar isso diariamente, porque é fazendo isso todos os dias que iremos transformar a realidade”, encerrou o professor.