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Tragédia da Boate Kiss: Oito anos de impunidade
29 janeiro 2021 | Geral
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“Kiss, oito anos de impunidade” é a frase do novo mural grafitado sobre a fachada do que restou da boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, onde um incêndio de grandes proporções matou 242 jovens, a maioria universitários, na madrugada do dia 27 de janeiro de 2013. A tragédia que comoveu o país e gerou grande repercussão internacional ainda se arrasta numa novela sem data para terminar. Quase uma década depois, os quatro réus do caso ainda aguardam o júri popular, que não tem data para acontecer.

O taperense Alex Giacomolli foi uma das vítimas

Giana Giacomolli, irmã de Alex, e a mãe, Cleci Z. Giacomolli concederam entrevista para o Jornal da Integração. Ambas contaram um pouco da história do Alex e falaram sobre a vivência com ele. Os familiares descreveram também “todo o pesadelo que aconteceu”, onde já se passaram oito anos, e a saudade toma conta. Confira:

Uma família se constitui por pessoas que se amam e que dividem um mesmo espaço, mas também sonhos e projetos em comum, ela pode ser formada de diversas maneiras mas para ser uma família basta amor. Em 1993, nossa família era formada por mim, Giana, a filha única do José Paulo Giacomolli (Paulinho Giacomolli) e de Cleci Z. Giacomolli, até o dia 11/03/1993, quando nasce o tão esperado menino e caçula da família, o Alex. Um menino lindo de cabelos pretos, gordinho, pesando 2.800gr, esperto e muito extrovertido, que adorava andar de bombacha e bota.

Esse menino cresce e se torna muito decidido, mas após vivenciar a perda do pai, acaba tornando mais quieto, mas não menos decidido e predestinado. O Alex era um menino meigo, amável, era nosso bebê, mimado por todos por ser o neto mais novo…Estudioso e caseiro, adorava estar com a família, andar a cavalo, conversar, ah! Quantas conversas madrugada a dentro.

Com 15 anos ele foi dar início a sua carreira profissional indo estudar na Escola Estadual Técnica Celeste Gobbato (Palmeira das Missões), onde se formou em Técnico Agropecuária, sendo aprovado logo em seguida pelo PEIES para cursar Agronomia na UFSM, mas sem antes fazer estágio na empresa Stara, em Não-Me-Toque, o que lhe proporcionou muitos momentos de aprendizagem e convívio com os amigos de infância e família. Porém, em 15/10/2012 ele muda-se para Santa Maria para começar as aulas da faculdade.

Seria mais um lindo domingo de sol, um dia de verão e num mês que deveria ser de férias…Era assim aquele dia que mudaria para sempre nossas vidas, um telefonema com perguntas sobre o Alex, se estava em casa ou estaria em Santa Maria para as aulas da faculdade que estavam sendo recuperadas devido à greve das Universidades Federais ocorridas aquele ano. Naquele momento meu coração dispara, as ligações começam, as buscas pelo facebook até realizar uma ligação para um colega de apartamento e descobrir que esse amigo estava internado.

O desespero bate, o coração acelera, as mãos suam, as ligações não param em busca de informação, ligo para a mãe avisando que teríamos que ir para Santa Maria, saímos de Marau, rumo a Tapera e de lá Santa Maria, a viagem mais longa e insana de nossas vidas, angústia e medo acompanharam o caminho todo. Inicia-se as idas aos hospitais, buscas em listas de informação com nomes dos internados, conhecer os amigos de faculdade, apartamento, famílias como nós tentando descobrir o que acontecera naquela noite trágica de 27/01/2013, durante o incêndio da Boate Kiss. Somos direcionados ao ginásio do Farezão, onde os corpos das vítimas estavam organizados de um lado ao outro, todos no chão e com um número de identificação como se fossem objetos, a cena era de horror, uns machucados, outros queimados, quebrados e todos mortos. No ginásio ao lado o desespero assombrava, todos choravam compulsivamente, roíam unhas, buscavam notícias e listas eram liberadas para o reconhecimento das vítimas por parte de seus familiares, ali foram umas seis horas.

Então recebemos a temida e menos esperada notícia, fui encaminhada ao ginásio ao lado, os olhos viam mas eu não queria acreditar meu irmão era uma das vítimas, a funerária já estava a caminho e o velório sendo organizado…Mas e suas coisas, seus sonhos, seus planos de futuro, a faculdade tão sonhada, a vida começando a ser descoberta de maneira única, as festas que estavam começando, os namoros que viriam, o casamento, os filhos, as viagens… tudo tinha morrido naquele momento e um pedaço de nós, nossa história, a nossa continuidade também morria.

E assim já se passaram oito anos, oito longos anos de saudade e de impunidade, um vazio que nada e nem ninguém preenche, a espera de algo que não acontece. Lutamos e ainda esperamos por Justiça para só assim termos um pouco de paz e sabermos que os culpados foram punidos e pagaram pelas vidas ceifadas.